Antes da PCE-UP, Conselho visitou a penitenciária vazia

 

Um corredor vazio se prolonga imóvel atrás de um portão aberto. Cena clássica da prisão sem dono. Parece haver pouco ou nenhum sentido nessa imensidão, como uma sala de cinema que repete o mesmo filme apenas para cadeiras estofadas. Mero prazer senil de construir um espaço de muitas portas, é de se imaginar.

A caminhada é longa. O visitante pode alcançar essa cena depois de transpor duas grades sem fechadura, um outro portão, o raio-X e a cancela de entrada. O corredor tem vinte celas dispostas milimetricamente de cada lado, metros longos de piso frio. No final de tudo isso dá para ver o infinito, que é da cor laranja. Na frente, uma placa com os dizeres 2ª Galeria, entalhada em madeira, pende para baixo como um smile triste. Nenhuma mão esticada, pedaço de unha, tatuagem, gemido ou sofrimento. São quarenta xis, ou cubículos, como dizem, lado a lado como numa marcha de 7 de setembro. Não há som nem cheiro. Nenhum passo, poucas camisetas deflagradas para fora da janela. Não tem negociação, carinho ou saudade. Cenário cru, desbotado, vazio.

Do outro lado do corredor principal, de onde se observa tudo, está a 1ª Galeria, gêmea monozigótica da , onde há mais agito. Catorze detentas dão fim e cabo aos últimos resquícios de menina do Presídio Central Estadual Feminino (PCEF), prisão de apenas quatro anos que passará a receber homens a partir do próximo mês. Umas carregam baldes, outras, panos. Produtos de limpeza cheiram mais que pó ou suor ou o cheiro do boi (a latrina no chão das celas). Elas estampam alegria desmedida e alguma preocupação com os próximos dias, mas varrem, contam histórias, circulam e abraçam tudo menos a grade.

A história que mais comove entre as catorze que cumpriam suas últimas promessas nesses corredores é de Osvalda*, 31 anos. Ela está ali por causa de um roubo simples e sofre a olhos nus pelo filho de apenas 17 anos que naquela altura repousava no esquecimento da maca do Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba há pelo menos cinco meses. Morreu pelas drogas e por pouco não foi enterrado como indigente. Sobraram cinco filhos (13, 10 e 5 anos, além de gêmeos de 3). A condição da família não permite que vivam juntos – nenhum deles, até mesmo os irmãos iguais estão separados. Ela cuidava de carros em Fazendo Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba, quando o mundo veio abaixo. Até mesmo a PCEF parece pequena diante de tamanha dor de verdade.

Júlia*, 31 anos, caiu com 42 quilos de cocaína escondidos no fundo falso de uma caixa de televisão. Diz que não sabia patavinas, mas estranhou os dólares que recebeu por essa transação. A polícia pegou o flagrante na primeira esquina.

Flávia*, 32 anos, mãe de oito crianças, era professora de capoeira da unidade. Dá quase um filho por ano.

Esse lado, o de cima da PCEF, tem dois andares de histórias. No corredor central repousam, ao lado de uma agente penitenciária, 60 exemplares do livro Morri Para Viver – Meu Submundo de Fama, Drogas e Prostituição, da ex-sub-celebridade Andressa Urach. Doação da biblioteca da PCEF que migrará para o mesmo lugar das detentas: a Penitenciária Feminina do Paraná (PFP). É uma espécie de T, onde os traços horizontais são as galerias e o corredor central é o I na vertical. Mais além tem uma cadeira de cabeleireiro, solitária no salão de beleza da penitenciária, trancafiada como um tesouro do prédio. Três espelhos do outro lado da poltrona, alinhados lado a lado como celas, findam a visão de entrada. Nenhum secador, pente, pinça ou lâmina de depilar.

Na mudança dos próximos dias, o pátio antes de tudo isso, “lá fora”, vai ser o “pátio do amor”. Dura realidade para as que estão de saída: as visitas íntimas são poucas para as mulheres. Por sua vez, elas não abandonam os homens atrás das grades.

 

Escada acima, escada abaixo, a outra grande construção da PCEF tem três andares. No final do corredor que separa as galerias 1 e 2 alinham-se mais seis e também o espaço da máquina de lavar roupa, um banheiro com privada e a área para a chegada e saída das presas para as audiências. E ao final dos milhares de metros quadrados construídos, no fim mesmo, repousam um murão e o jardim de trás, dedicado ao cultivo de uma coisa ou outra da terra.

No meio da PCEF, na ligação, estão os pátios em descida onde as presas recebiam sol e também onde as roupas eram penduradas. Acima do corredor central, um outro corredor, aberto, dá a visão geral de tudo. Big Brother. São duas baita edificações, separadas por pátios, e que não emitem um pio.

O vazio assusta, mas as marcas estão por todos os lados. Construído como parte integrante da Penitenciária Central do Estado (PCE), avó de 62 anos do sistema carcerário do Paraná, esse cadeião tem rebocos que falam por si. Partes das digitais ficaram para perícia. Tem desenhos sobre as paredes que já receberam chamas, uma mensagem para a Polícia Militar (271101 PMPR), números de processos, borboletas, corações e pássaros. Tem também um armarinho bem simples que recebia as cartas de farmácia, apelos jurídicos, confidências com assistentes sociais e psicólogos. Nada fora do lugar, só o lugar fora do padrão.

As presas que ali estavam, varrendo, cantarolando, anunciavam adeus. As outras, que saíram aos picados, se mudaram para casa ou para a PFP. No último mutirão carcerário, de outubro, 341 mulheres tiveram suas penas revistas em todo o estado. As que restavam logo cruzaram a rua, literalmente, para dormir na PFP, onde as unhas, os apelos, as mensagens e os gritos ficarão por mais tempo.

Enquanto isso, a PCEF passa por uma demão. Em dezembro, será lar, com outro nome, da penitenciária modelo do estado do Paraná. Serão 300 detentos respirando saudade e expectativa por esses mesmos corredores. Eles estão sendo selecionados em mais de mil perfis para um tratamento experimental, com trabalho e estudo quase em tempo integral. Só o tempo contará a redenção, mas as baldadas de água jogadas com fervor por aquelas catorze meninas faziam som de batizado: “jaz aqui um presídio feminino; nasce, porventura, um sucesso”.

*Os nomes foram modificados.

Dica: confira os bastidores da visita do jornalista José Carlos Fernandes ao presídio do Ahú. AQUI.