Personagens que chegam ao Conselho: “Fumei minha casa inteira”

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Se as cadeias têm todo tipo de maldade, como diz o descuidado, também têm pessoas como Lúcia: mãe, 43 anos de idade, quase 12 de reclusão no regime fechado. Ela tem tentado suicídio desde pequena, quando sorveu grande quantidade de Kiboa e veneno de rato. A última foi em meados de novembro, quando ingeriu todos os ansiolíticos de uma cartela e cortou os pulsos dos dois braços. Quinze dias depois, Lúcia ganhou alvará de soltura pelo juizado competente, colocou tornozeleira eletrônica e foi para casa, em Paranavaí. Nesse ano, um novo desespero: ela cortou a tornozeleira e veio até Curitiba disposta a ser presa novamente na Penitenciária Feminina do Paraná (PFP) para tratar, de uma vez por todas, sua depressão crônica.

A história repete a tragédia de parte do povo brasileiro, largado à própria sorte para correr atrás de educação e para longe das drogas. Nem um nem outro caminho funcionou. Lúcia não completou o ensino fundamental na terra natal, no Noroeste do Paraná, e desde 2002 encara as rotinas das carceragens. Ela começou a fumar maconha e cheirar cocaína aos 17 anos, e aos 20 conheceu o crack. Quando foi presa pela primeira vez, por tráfico, ainda era usuária. Isso ocorreu em Londrina, onde ficou presa por quase 4 anos, 2 deles como provisória. Depois disso, ela foi transferia para a PFP, em Piraquara, onde ficou mais 3 anos e pouco.

Durante a estadia em Londrina, não teve qualquer acompanhamento. Na Região Metropolitana de Curitiba, sim. “Eu estava bem em Piraquara. Trabalhei em alguns canteiros dentro da unidade, na limpeza e também no corte e costura. Também trabalhei para a Provopar [Programa do Voluntariado Paranaense], com uniformes”, conta, com orgulho, dos R$ 50/mês de pecúlio pelos serviços prestados dentro da unidade. Quando saiu, Lúcia acumulou R$ 600, descontados os gastos com as compras da casa (na época, as agentes penitenciárias compravam alimentação e produtos de higiene pessoal e descontavam do dinheiro em conta do preso, o que foi substituído pelas sacolas levadas pelas famílias). À época, também eram permitidos cigarros na penitenciária. Como Lúcia não fumava, ela trocava por pacotes de absorvente – o estado dava apenas um pacote por mês por presa.

A família, a pedido, não a visitou na prisão. O pai já havia falecido e ela pediu para a mãe não se deslocar até a capital. Ela veio a falecer momentos depois. “Ali eu estava bem. Estava focada. Estudei alguma coisa do ensino fundamental que faltou. Me comprometi a estudar fora da penitenciária, mas incorri no mesmo erro: drogas. Pedi para não me visitarem. Eu quis focar na recuperação”, afirma. Lúcia passou mais 4 meses no regime semiaberto em Curitiba, mas, com medo da vida real, se recusou a trabalhar fora da unidade. Ficava na lavanderia. “Quando as presas voltavam, tudo já estava limpo, organizado, passado. Não quis nem mesmo o indulto para o Natal e o Ano Novo. O juiz aceitou e reservou esses dias para quando eu quisesse sair. Calhou de eu ser liberada um mês antes e nem aproveitei esses dias”, explica.

“Em Londrina, entrava tudo: celular, qualquer droga, era um caos. Em Piraquara, melhoraram as coisas. Eu fiquei muito tempo na delegacia porque eu não tinha advogado particular, era tudo com a Defensoria. E nós sabemos que eles atendem muitos presos e por isso tudo é mais lento”.

Quando Lúcia voltou para Paranavaí, reencontrou a avó e foi morar na casa dela. Durou pouco tempo, até achar um aluguel. Ela passou a trabalhar como diarista em Maringá (a duas horas de ônibus) e vendia umas bijuterias e peças de roupa da loja da irmã. Logo, a situação voltou a apertar e uma amiga, garota de programa, a convidou para trabalhar em uma boate como faxineira. “Eu não tenho nada contra, mas não consigo ser garota de programa. Eles pagavam R$ 900 para faxina e cozinha. Era um dinheiro muito bom e eu não recusei”, conta. Lado a, lado b. Em pouco tempo, ela voltou a ser usuária de droga. Nesse período, passou três meses sem se apresentar perante o juiz, e justificou a ausência com a verdade inconveniente: voltou a se drogar. O magistrado não aplicou sanção e Lúcia encerrou os 9 anos de pena na mesma situação da entrada no sistema.

“Nessa época, eu arrumei minha casa. Comprei móveis novos, deixei ela ajeitadinha. Mas eu fumei a casa inteira. Isso corta meu coração”, conta. Nesse período ela se envolveu com o atual marido e engravidou. Por um furto simples, em Cianorte, ficou mais seis meses na delegacia, mesmo grávida.

Liberada, teve o filho e largou o consumo de crack. No entanto, continuou vendendo. Ela e o marido comercializavam dentro de casa. O Conselho Tutelar municipal alertou para os riscos, depois de uma suspeita, e eles entregaram o filho para a sogra de Lúcia. Pouco tempo depois, ambos foram presos, desta vez na delegacia de Paranavaí, que abriga em torno de 30 mulheres e 300 homens, separados em duas alas. Foi numa dessas celas que abriga 4 ou 5 presas que ela tentou o suicídio. Foi a primeira passagem dele.

“A situação em Paranavaí é bem complicada. Os agentes penitenciários zombam da gente, dizem que não temos direito de comer comida quente, que não podemos beber água, que temos que sofrer. Uma rebelião no ano passado piorou ainda mais a situação. Foi na ala masculina, meu marido já tinha sido liberado, mas as presas sofreram ainda mais. Tiraram o fogão, uma geladeira e tudo que tínhamos. Ficamos sem acesso ao corredor, sem nada. Aquilo era o inferno”.

No final do ano passado, ela ingeriu todos os comprimidos de uma cartela e diz não se lembrar da mutilação. “Fiquei louca por uma semana. Quando voltei à realidade, vi o que tinha feito comigo mesmo. Logo depois o juiz me mandou para casa”, conta. O marido conseguiu emprego assim que saiu, na área de limpeza da Mister Frango de Paranavaí. Ele tem carteira assinada e nunca mais se envolveu com drogas.

“Eu tive sorte, eu acho. Todas as pessoas que entraram nas drogas junto comigo estão mortas, ou gravemente doentes, ou foram alvejadas e não conseguem mais andar. Acho que sou a única bem. Todas as marcas que eu tenho fui eu mesma que fiz. Mas isso é por causa da depressão. Tem uma força contra mim que me acompanha desde pequena. Minha mãe morreu de depressão”.

“Eu até tentei uma vida normal, procurei o Caps [Centro de Atenção Psicossocial], mas era época de férias, não consegui atendimento”. No dia 29 de novembro de 2016, depois de 12 anos de idas e vindas, ela tentou se matar. Em todo esse período, o estado não conseguiu tratá-la. No dia 6 de dezembro, ela colocou pela primeira vez uma tornozeleira eletrônica. No dia 9 de janeiro de 2017, ela cortou o aparelho e correu para Curitiba. “Se for para voltar para a delegacia de Paranavaí, eu prefiro a morte. Na penitenciária ao menos eu consegui me tratar”.

O Conselho da Comunidade conseguiu junto ao juiz da comarca de Paranavaí que ela volte para o regime domiciliar, com tornozeleira eletrônica, desde que tenha acompanhamento psicológico. Pela reincidência, a nova pena é de 18 anos. O filho do casal tem cinco anos e vai para a escola pela primeira vez no mês que vem.

 

*Lúcia: nome fictício.