Personagens que chegam ao Conselho: “Não consigo emprego porque fui presa”

dscn0001

Aos 39 anos, Sandra cerra os olhos ao batuque da primeira sirene. Em 2008, três policiais militares invadiram a sua casa em busca do seu marido, que já estava preso. Mesmo assim, ela foi levada para a prisão sob acusação de esconder entorpecentes no local. O filho de um ano do casal acompanhou toda a ocorrência. Os outros quatro filhos do primeiro casamento dela também. Foi sua segunda passagem pela detenção – ela foi absolvida de todas as acusações, novamente.

Para parte expressiva da sociedade civil, no entanto, ela é culpada apenas por ter pisado no chão frio de uma penitenciária.

As crises de pânico começaram há pouco, mas as idas e vindas já completaram 12 anos. Sandra trabalhava com marketing e vendas digitais para uma das maiores editoras do país, função que exerceu ao longo de oito anos. Ela também trabalhou em hotéis, como auxiliar de cozinha e numa fábrica de sapatos. Nessa época (2005), começou a se envolver com o atual marido, e os dois tiveram um filho. Moravam todos no terreno da família: casal e os cinco herdeiros.

Nessa mesma época, o marido, usuário costumaz de maconha, começou a comercializar crack dentro de casa, em Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana de Curitiba. Ele foi preso e mandado para a Penitenciária Estadual de Piraquara I (PEP I). Pouco tempo depois, a Justiça expediu um mandato de prisão contra Sandra, que também foi presa, sob acusação de cumplicidade. Ela ficou detida por nove meses – dois deles no 12º Distrito Policial, em Santa Felicidade, e mais sete meses na Penitenciária Feminina do Paraná (PFP), também em Piraquara. Sandra completou seu aniversário na cadeia.

Depois de dois anos, o marido saiu da penitenciária e voltou a trabalhar como pintor de prédios altos, sua profissão de carteirinha. Mas novamente começou a vender drogas, desta vez nas biqueiras, e ficou mais seis anos atrás das grades. Nesse período ele chegou a ser transferido para a penitenciária federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Sandra fez duas visitas ao marido no Nordeste. Quando os policiais invadiram a casa, ele estava lá.

Nas palavras de Sandra, eram tempos de calmaria, mas o susto permanece: “eles atiraram para dentro de casa, quebraram a porta. A todo momento me pediam onde estava o meu marido e eu falava que ele estava no presídio federal, que eles podiam verificar. Eles não se convenceram. Fizeram as minhas filhas, que na época eram menores de idade, ficar nuas para a revista. Meu filho tinha um ano. Eles não se convenceram e falaram que eu iria presa. Depois de certa altura, um deles foi para o carro e voltou com uma pequena quantidade de crack falando que tinham achado na minha casa. Mas eles plantaram isso. Eles queriam R$ 5 mil para eu não ir presa. Eu estava amamentando nessa época, tinha leucemia. Eles me levaram para a cadeia e também levaram televisão, computador e até uma batedeira”.

Sandra passou mais três meses na delegacia de Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba. Depois, afirma, vieram a depressão e quadros de crise de pânico. Ela curou a leucemia graças ao transplante de medula do filho, com cinco anos na ocasião.

A vida até melhorou, mas o perrengue voltou a galope. Em 2015, o marido voltou a trabalhar como pintor, fora das grades, mas teve seu nome envolvido na Operação Alexandria, deflagrada em dezembro daquele mesmo ano, quando voltou para a cadeia junto de outras 576 pessoas – todas acusadas de pertencer ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo Sandra, as forças policiais teriam interceptado ligações telefônicas de 2012 do marido, de dentro da penitenciária. Somado ao porte de 20 gramas de maconha, encontradas na casa, e à dupla reincidência, ele foi preso e condenado a 7 anos e 5 meses de prisão em regime fechado, novamente na PEP I.

Agora, ela pena para visitá-lo todos os finais de semana em Piraquara, perdeu o pai recentemente e não consegue emprego nem em mercado aquecido. “Não consigo emprego porque passei pela penitenciária, mas fui absolvida nas duas oportunidades. Meu atestado de antecedentes criminais está zerado. Não é justo”, afirma. “De algum jeito, as pessoas têm visto que eu passei na penitenciária. Mas eu não sou culpada. Sou uma cidadã trabalhadora”.

O Conselho da Comunidade na Execução Penal conseguiu de imediato uma entrevista de emprego para ela trabalhar como camareira em um hotel de Curitiba. As filhas nunca se envolveram com coisa errada e trabalham, as três, com questões de manicure e corte de cabelo.

Mais casos

O caso de Sandra é apenas mais um da triste realidade do sistema penitenciário e do pós-sistema. Apenas na semana passada, o Conselho da Comunidade recebeu três outras histórias: um ex-detento empregado da construção civil foi dispensado por conta da tornozeleira eletrônica; uma presa pediu para voltar para o regime fechado porque não conseguiu emprego fora da penitenciária; e um preso da Colônia Penal Agrícola, do regime semiaberto, que teria conquistado o direito à tornozeleira, se recusou a sair dessa maneira por conta do preconceito.

Sandra*: nome fictício.