O livro refeito de Sandro, um autor descoberto pelo Conselho

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Os originais rabiscados a caneta de A Teoria do Sentimento: Força que Constrói e Destrói pereceram engavetados no xadrez 16 da Penitenciária Central do Estado (PCE), em Piraquara, ao lado de pertences de outra dezena de homens. Em 2010, fogo e estrondos de um motim consumiram papel por papel do livro. Sandro Melanski, autor daquelas páginas, conta com visível incompreensão dos quatro ou cinco dias de tensão e mortes pelos corredores tomados de gente. Alguns carregavam cabeças de um lado para o outro como no Amazonas. Foram oito vítimas.

Essa semana turbulenta antecedeu sua transferência para a Penitenciária Estadual de Piraquara I (PEP I), onde ficou mais três anos, até passar para o regime semiaberto da Colônia Penal Agroindustrial. De 2013 a 2015, instalou-se em um banheiro desativado de uma antiga capela, armado desta vez de uma Olivetti para reescrever o livro queimado.

A Teoria do Sentimento, escrito por Sandro e editado pela portuguesa Chiado, será lançado neste sábado (18) na Livraria Cultura do Shopping Curitiba. Se romper a barreira dos mil exemplares vendidos, a editora vai lançar o livro no México, Estados Unidos, Irlanda e Inglaterra. O contrato do escritor condenado a 74 anos e mais uns meses de prisão por furto, roubo e latrocínio e a editora lisboeta é de três anos.

Sandro foi preso aos 21 e cumpriu 19 anos da pena (entre entradas e fugas das delegacias), de modo que passou quase metade dos seus quase 41 anos atrás das grades. A filha, de 13 anos, nasceu no pouco sol dos seus dias.

Seu sentimento à época das detenções nem teoria tinha: puro ódio. Os pais digladiavam entre si, um dos seus oito irmãos foi encontrado enforcado e a família pulava de casa em casa em Curitiba e Região Metropolitana ao primeiro sinal de polícia – o pai era foragido e mais tarde cumpriu 12 anos de prisão. Nessa de viver itinerante, Sandro largou a sexta série, experimentou crack e vivia em turma jogando bola e cometendo delitos ao longo dos dias. “Eu tinha mente do mal mesmo. Esse era o sentimento que estava representado em mim. Me deixei levar por ele. Nessa época, eu nem pensava em nada. Alguém convidava para alguma coisa e eu ia, fosse para roubar, pular, correr. Tive uma explosão de sentimentos negativos”. Nesses anos, ele chegou a matar um colega por R$ 10.

Sandro foi detido uma vez, mas fugiu. Na segunda, foi achado pela Cope, mas fugiu. Na terceira, foi levado para a “furtão” (Delegacia de Furtos e Roubos), e de lá não conseguiu escapar. Foi transferido para o presídio do Ahú, mas continuou acorrentado às gangues. Entre tentativas de furto e posse de celulares e serras, passou muito tempo na solitária. Continuou agitado, mas começou a sossegar.

A certa altura, trancafiado, começou a disparar cartas para um amor dos tempos de moleque. Contra tudo e todos, ela embarcou no ônibus até a prisão. Ele pediu que ela não voltasse. Ela voltou e sua vida mudou. Teoria é todo dedicado a ela. A filha deles, ele jura, será modelo.

“O amor dela fez o meu amor reviver. Eu tinha prometido para mim mesmo que não iria amar ninguém. Mas tudo muda quando você passa a amar alguém de verdade. Eu quebrei mais uma regra, a minha própria, mas desta vez para o bem. Por causa desse amor eu comecei a recuar das coisas erradas. E para não ficar longe dela, prometi a mim mesmo que não iria mais para o castigo. Desde então, nunca mais fui”, orgulha-se. “Durante esses anos, eu li minha mente. Também passei a entender os enigmas da Bíblia. Conhecendo o criador, conheci a criatura. Adquiri forças para barrar o mal. É disso que se trata o livro, de olhar para si e reconhecer outra pessoa”.

Durante seu cárcere, outro irmão foi assassinado. “Escrevendo, vivenciei de perto o que eu estava pondo no papel. Recebi essa notícia e meu primeiro ímpeto foi de vingança, mas depois pensei melhor. É justamente essa batalha que travamos o tempo todo em nossas vidas”. O livro, salada de experiência pessoal e autoajuda, também versa sobre resistência.

Na Colônia, após uma juventude inteira no regime fechado, Sandro se dedicou para valer a escrever o livro apagado. Mas só depois de faxinar os pátios atrás de uns R$ 30 e poucos de pecúlio. “Ficou melhor do que da primeira vez”, assegura. Olivetti em mãos, ele não saía nem para ver o pôr do sol. E também não estudou mais do que a sexta série. “Ou estudava ou fazia livro. Ele precisava sair, já era a segunda vez. Eu entrava na sala de aula e já falava para a professora que eu estava trabalhando em um livro. Ela nunca me repreendeu”.

Com o exemplar em mãos, depois de dois anos de dedicação, Sandro pediu autorização para o juiz Eduardo Fagundes, da 1ª Vara de Execução Penal, para trabalhar nos trâmites de espalhá-lo. “Ele me deu 30 dias para ficar fora da Colônia. Aí mostrei o orçamento do livro. A cada oportunidade, eu fui mostrando para ele a minha evolução, e ele foi me dando mais confiança”, conta. A tiragem do primeiro livro custou R$ 6 mil, metade arcada pelo Conselho da Comunidade, que apadrinhou essa história.

Pouco tempo depois Sandro passou ao monitoramento eletrônico e encasquetou de mandar os originais para uma editora. A Chiado respondeu com uma aprovação em menos de dez dias, mas com uma condição: ele teria que escrever o livro novamente, pela terceira vez, agora no Word.

“Os juízes de condenação me falavam que eu tinha uma personalidade voltada para o crime. E esse também é um problema da cadeia: é um depósito de seres humanos. O Estado não faz o trabalho de reeducação. Ele só quer liberar vaga, prender mais, liberar vaga. Aqueles que querem mudar têm poucas oportunidades dentro, mas no regime semiaberto você consegue se destacar. Basta procurar os órgãos e pedir ajuda. Eles vão dar oportunidade. Nada pode ser maior que o teu objetivo nessa hora”, conta. “Um colega meu começou a escrever um livro sobre música dentro da Colônia, e eu sempre procurei incentivá-lo, mas é difícil. Aqui fora, encontrei ele na rua, com crack na mão. Não é fácil dar a volta por cima”.

Para bancar as contas, Sandro trabalha em parceria com uma imobiliária. Ele toca todo tipo de serviço manual, mas cuida basicamente das vistorias de entrega dos inquilinos. Ele apresenta os orçamentos e toca as obras. Tem empresa, com CNPJ e tudo, e até funcionários dependendo da grana acertada. Mas o seu sonho é se dedicar aos livros e palestras motivacionais. “Meu livro está ao lado do Augusto Cury nas prateleiras. Já estou sendo vendido em Portugal. Olha o que eu fiz?”. E você já leu Cury, Sandro? “Não tenho paciência para ler. Não consigo mais. Na penitenciária, só li a Bíblia. Talvez quando eu estiver mais tranquilo financeiramente e depois de cumprida toda a minha pena”.

Sandro deve tirar a tornozeleira eletrônica neste ano, mas ainda tem uns 40 anos de débito com o passado.