Personagens por trás dos avanços das Casas de Custódia de Curitiba e São J. dos Pinhais

Em 2012, a Secretaria de Justiça do Paraná, que coordenava o Departamento de Execução Penal (Depen), decidiu transferir os presos faccionados da maior organização criminosa do estado para a Penitenciária Estadual de Piraquara I (PEP I). A ideia fazia parte de um planejamento de separação dos detentos por periculosidade: os de Curitiba e Região Metropolitana ficariam nessa unidade, que englobaria também as áreas dos Campos Gerais e o Litoral; e a Penitenciária Estadual de Maringá (PEM) abrigaria os presos do Norte e do interior do estado. O projeto claudicou e todas as principais lideranças caíram na PEP I, onde estão até hoje. Nesse mesmo ano, o diretor da unidade, Lúcio Olider Micheline, colocou um casal de gansos entre os muros e uma tela que antecede o paredão. “Foram 22 tentativas de fuga em 2012, e ninguém conseguiu. Eles me falavam: ‘Seu Lúcio, quando a gente ia sair, eles gritavam e acordavam o policial militar do muro’. Um deles chegou a ficar um dia inteiro em cima do presídio e não conseguiu fugir”, conta.

Lúcio Olider Micheline está há 30 anos no sistema penitenciário e é o atual diretor da Casa de Custódia de São José dos Pinhais, que abriga, em média, 980 presos. A capacidade é de 1.020. A ideia, na época, foi inspirada em doze bodes que circulavam perto de uma unidade em Ponta Grossa. “Ninguém fugia”.

Desde novembro no comando da CCSJP, Lúcio está reformulando a unidade. O Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba, presidido por Isabel Kugler Mendes, irá ajudar. Nos próximos meses, a vigilância será reforçada com a instalação de mais câmeras de segurança e haverá banheiros nos pátios de visita, que hoje inexistem. “Nós pretendemos colocar dois banheiros nos nossos doze pátios de visita, um para mulheres e um para os homens. Atualmente, as visitas têm que usar os banheiros internos da unidade, o que gera desconforto”, explica. A intenção é atender também os apenados. “Mesmo quando eles estão no pátio de sol precisam voltar para dentro da unidade em caso de necessidade. Isso também será solucionado”.

Cerca de 65% dos presos da unidade de São José dos Pinhais são provisórios. E em torno de 35% deles estão envolvidos em alguma atividade de estudo e trabalho, caso, por exemplo, dos três presos que cuidam de uma fabriqueta de bolsas e mochilas. Todo o material é enviado pelas famílias e eles chegam a produzir até dez bolsas por dia, que variam de R$ 35 a R$ 70. “Nós aprendemos tudo aqui. E recebemos toda a ajuda dos guardas e da direção. Nós trabalhamos com tesouras, alfinetes, todo tipo de material cortante, e mesmo assim eles entram, nós conversamos. Nós estabelecemos essa confiança. Isso é o que vamos fazer do lado de fora. Quero ver minhas bolsas expostas na Feirinha do Largo da Ordem”, conta um deles.

Esses presos da galeria 2 também costuram lençóis, fronhas e remendam as roupas dos outros presos. “Os agentes trazem as roupas com problema e nós consertamos. Nós temos material e disposição para isso”, explica. Os costureiros ficam de um lado do corredor e exatamente do outro ficam dois presos que coordenam uma biblioteca. Eles catalogaram todos os livros em um grande caderno nos últimos meses e cuidam da distribuição deles dentro da unidade.

“Nós estamos nos movimentando. É o começo do trabalho, tem problemas, mas vamos bem. Também queremos ver se conseguimos um computador para eles”, diz o diretor da unidade.

CCC

A Casa de Custódia de Curitiba (CCC), a 35 quilômetros de distância da coirmã, também passa por uma revolução. Na última vistoria do Conselho da Comunidade, nesta semana, cerca de vinte presos andavam “soltos” pela unidade atrás de reparos, plantio, consertos eletrônicos e o dia a dia de uma cozinha. A casa faz custódia de 200 presos a mais do que sua capacidade – 632 para 432 vagas -, mas 53% deles desenvolvem alguma atividade ligada a pecúlio (trabalho interno) ou estudo, o que possibilita remição. Como na unidade de São José dos Pinhais, há apenas um canteiro de empresa de fora instalado na unidade: a reciclagem das marmitas entregues pela empresa Verde Mar.

O responsável pelos ditames é Samuel da Silva Moreira, diretor da unidade. Ele estabeleceu um convênio com uma grande empresa de material de construção para receber azulejos quebrados para modernizar as calçadas da unidade, emprega dois presos na horta, três na cozinha (onde costumam fazer pão e doces) e mais dois na área eletrônica. “O meu próprio computador foi consertado por um preso. Eles arrumam as câmeras de segurança, os portões. Tudo o que é eletrônico da unidade”, conta Samuel.

Um dos presos da eletrônica também tem outro talento especial: ele lapidou, em madeira, símbolos do Depen para colocar na direção da unidade e também as letras que identificam cada lugar, da ala de visitas íntimas ao DIPRO (Divisão de Ocupação e de Produção). Ele está há 15 anos preso e tem três filhos, entre eles uma menina de 14 anos, concebida em uma das visitas íntimas.

A unidade também construiu dois banheiros com chuveiro quente para as visitas usarem do lado de fora da penitenciária, principalmente para as que vêm do interior, e vai construir dois banheiros no pátio de sol da unidade, que recebe em torno de 60 pessoas por dia nos finais de semana de visita. O próximo passo? Aquisição de máquinas de costura para reparar os uniformes dos presos. De acordo com o Depen, a unidade deve ser uma das primeiras a receber as peças novas confeccionadas na Penitenciária Central do Estado – Unidade de Progressão.