História da vida real: um pescador arrependido em Curitiba

O pescador Eliezer Cristiano de Jesus se entregou no Conselho da Comunidade nesta terça-feira (11), em plena Semana Santa. A história parece encomendada, mas seu nome é verdadeiro, autorizado para este relato.

Eliezer tem 30 anos e há pouco mais de um estava foragido, vivendo em Guaratuba, no litoral do Paraná. O patrão, amigo remansado, empregou-lhe em um barco de pesca que tentava a sorte em alto mar, “sob chuva ou sol”. De segunda a segunda, às 3h, por 365 dias, ele acordou, jogou uma água doce na cara e singrou as ondas mar adentro. Voltava perto do meio-dia, limpava o que tinha que limpar e antes das 18h já estava recolhido em casa, com medo de ser descoberto. “Vivia num dos piores bairros da cidade, beco do tráfico mesmo, barra pesada. A polícia aparecia direto lá. Eu não podia sair de casa. Eu sei toda a programação da Globo e do SBT, pode perguntar”.

O afã forasteiro o ajudou a bancar algumas contas de três filhos: uma menina de 1,2 anos, uma de 6 e outro de 10. Ele foi casado por 11 anos – o filho mais velho está sob a guarda da sua mãe, as duas sob a da ex.

A mãe é adotiva e namorava o sobrinho da sua tia sanguínea quando o recolheu. A mãe sanguínea optou por abandoná-lo dentro de um saco preto de plástico às beiras de um latão de lixo quando tinha apenas três dias. O único a ser abandonado. A mãe de sangue criou outros onze filhos, menos ele. Nenhuma explicação. Ele chegou a perguntar isso para ela. Nenhuma explicação. Com 17 dias de vida, foi registrado pela mulher que o acolheu, vestiu e o viu caminhar.

Quando fugiu, Eliezer Cristiano de Jesus cumpria pena na Colônia Penal Agroindustrial do Paraná (CPAI), na sede, havia pouco mais de 20 dias, após ter sido recapturado em uma abordagem policial de rotina. Escapou pela porta da frente na carona de um táxi depois de passar por um tratamento no ombro no hospital Angelina Caron, que tem convênio com o sistema penitenciário para atendimentos emergenciais. Ele queria ser tratado também de um problema de broncopneumonia e bronquite asmática, que o acompanham desde sempre, mas não foi atendido. Também havia pedido para deixar a sede e ir para a Olaria da CPAI para trabalhar. Sem sucesso, indignou-se. Resolveu fugir.

Quando foi capturado pelos policiais, antes de parar na Colônia, estava em uma estação-tubo de ônibus em um bairro de periferia. Entrou na revista que era dada a jovens negros, e havia um mandado de prisão expedido contra ele. Eliezer acabou trancado, pela terceira vez.

A extensão do mandado se referia ao primeiro crime que havia cometido, em 2010. Assalto com arma branca. Ficou preso no 8° Distrito Policial e na Casa de Custódia de Piraquara, e foi solto com o compromisso de assinar em juízo seu débito com a justiça. Disse não ter sido aviso e não rubricou uma única vez papel algum. Sumiu. A justiça buscou.

Estava há três meses desempregado e não via mais alternativas para colocar dinheiro em casa. Tinha 23 anos, pegou uma faca da cozinha, convidou um “noia” para participar e assaltaram, ironicamente, uma estação-tubo. O crime rendeu R$ 123. Deu R$ 23 para o “noia” e foi preso em flagrante por policiais a paisana. Desde então o turbilhão piorou.

Sofreu um processo enquadrado na Lei Maria da Penha por ter desferido um soco na então namorada, alegando que ela tentou acertá-lo com um facão. Passou um tempo na delegacia de Fazenda Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba.

Em 2014, se envolveu em outro quiprocó. Desta vez, diz não ter participado de nada. Eliezer era um dos líderes sem-terra do assentamento da Caximba quando policiais cumpriram mandado de reintegração de posse no local. Um companheiro foi levado com drogas, ele teria interpelado os policiais e foi levado acompanhado. Diz ter ouvido eles combinando: “Para ferrar com ele, vamos passar na minha casa, pegar droga e por no * dele”. Passou seis meses entre a delegacia de Colombo, a CCP e a PEP 1.

Entre os dois crimes, foi condenado a pouco mais de oito anos de prisão. Contando as passagens, ainda lhe restam sete anos e um pouco mais para cumprir. Quando fugiu, queimou todos os documentos. Agora, se entregou. O filho disse para ele pagar o que ainda devia para poder transitar em paz. Na quarta-feira (12), foi ouvido pelo juiz da 1° Vara de Execuções Penais de Curitiba e sentenciado a voltar para a CPAI, onde aguardará a progressão para cumprir o que ainda deve em regime aberto, sem precisar se esconder.

Eliezer tem duas irmãs da mãe adotiva: uma é enfermeira e a outra é agente comunitária de saúde. Terminou a 8° série apenas e já trabalhou nas pizzarias Baggio e Di Più, e como garçom em um bar no bairro Rebouças. Também entrou para uma Igreja Batista. “Não seria justo continuar na religião sem pagar pelos meus pecados”.