Os doze pintores da Penitenciária Central do Estado

O autor e a obra

A Penitenciária Central do Estado (PCE), em Piraquara, é a unidade que abriga a maior população de presos do sistema carcerário paranaense (1.667 homens), mas essa magnitude (os corredores do local somam mais de cinco quilômetros, segundo os agentes) contrasta com o ócio coletivo de cerca de 70% deles. De acordo com a direção da unidade, apenas 30% estão envolvidos em atividades educacionais ou laborais: 318 trabalham em canteiro interno, quatro em um canteiro externo, 93 estudam e 90 fazem remição por leitura. Há inúmeras causas: faltam agentes penitenciários para movimentar os detentos, há poucos canteiros de trabalho e números limitados de vagas nos programas de leitura e ensino. Para minimizar os efeitos do encarceramento e estimular a criatividade dos detentos, o Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba e a pedagoga da unidade, Meiry Mostachio, criaram o projeto Arte no Cárcere: Caminho da Ressocialização, que já começou a dar resultados.

O programa foi implementado em fevereiro com uma dúzia de detentos. Ele funciona todas as segundas-feiras, entre o final da manhã e o começo da tarde. O professor e artista plástico Douglas Krieger, contratado pelo Conselho da Comunidade, ensina aos presos técnicas de pintura, desenho e construção de molduras através do reaproveitamento de madeira. Desde o começo do projeto, os detentos já pintaram 150 quadros.

Para a coordenadora das atividades, o sucesso é absoluto. “Os encontros com o artista plástico são aguardados com alegria pelos detentos, que a cada segunda-feira dão mais vida ao cárcere”, conta Mostachio. A PCE, aliás, tem vocação para a arte. Em 2015, o agente penitenciário Lino de Lima Teixeira organizou a pintura do principal corredor da unidade ao lado de um detento que tinha talento para o grafite.

Para a presidente do Conselho da Comunidade, Isabel Kugler Mendes, os bons resultados alcançados na PCE podem inspirar novos programas dentro do sistema penitenciário. “Essas aulas descobrem verdadeiros talentos. Muitos desses presos não tiveram oportunidade similar, por isso recorreram a coisas erradas. A arte é o caminho para eles descobrirem responsabilidades que não conheciam”, explica. “É impactante ver a felicidade com que expõem os quadros, mostram as suas habilidades. Cada quadro é um troféu”.

O sentimento é compartilhado pelos presos que participam do projeto. Para um deles, que trabalha como marceneiro em uma empresa que emprega presos na PCE e faz jornada dupla às segundas, o Arte no Cárcere é um passo a mais para encarar a vida real. “Todos nós respeitamos o professor e nos esforçamos para desenvolver as técnicas que ele nos ensina. Na verdade, é muito fácil. Mas nunca tivemos oportunidade de fazer isso antes”, atesta. Outro preso já almeja sonhos mais altos. “Na verdade, eu quero começar a vender esses quadros. Pode ser a minha profissão quando eu sair”.

Projetos

Arte no Cárcere é apenas um dos programas apoiados pelo Conselho da Comunidade na Execução Penal, que também diligencia a obtenção de materiais para as dez unidades assistidas pelo órgão. Nos últimos meses, o Conselho da Comunidade entregou câmeras de segurança, televisões, tecido para a confecção de uniformes, material de higiene, limpeza e de construção, colchões e roupas para todas as unidades do sistema prisional da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba.

A presidente do Conselho da Comunidade é uma das autoras do projeto

 

Preso de apenas 25 anos mostra os quadros que pintou
Exposição de parte das obras