Goleada atrás dos muros: o campeonato de futebol da PCE

Isabel Kugler Mendes, presidente do Conselho da Comunidade, e Elídio Peçanha de Souza, diretor da PCE, entregam o troféu ao time vencedor

O time da Faxina, fardado inteiramente de branco, aplicou a maior goleada do Campeonato de Futebol PCE 2017: 36 x 1. Quase um gol por minuto (o jogo tem 40), baile, chocolate, cinco vezes o que a Alemanha fez sobre o Brasil na Copa do Mundo de 2014. Mas as comemorações repetitivas não bastaram para fazer dos donos da vassoura campeões. O troféu foi disputado em final de jogo único, na última quarta-feira (26), entre a Faxina e a Lavanderia, e ficou nas mãos do agrupado das roupas, que traja Adidas e uma camiseta azul da Gráfica Bamerindus. O terceiro lugar foi conquistado pelo time B da Cozinha – como o setor é grande, foi dividido em A e B.

O artilheiro, J.O.S, fez 42 gols, muito mais do que um por jogo. O time do setor de Sabão, onde os presos aprendem química e fazem produtos de limpeza e higiene pessoal para toda a penitenciária e, eventualmente, para unidades vizinhas, foi o lanterna, sem vitórias. 

Há pelo menos dez anos a Penitenciária Central do Estado (PCE) não vibrava ao som de um torneio do esporte que corre na seiva do brasileiro. A unidade abriga quase 1.700 presos na Região Metropolitana de Curitiba e é a maior do Paraná do regime fechado. No passado, o local chegou a abrigar um campo de futebol, que foi substituído por novas celas depois de uma das maiores rebeliões do estado, no início dos anos 2010.

O campeonato começou em fevereiro e foi organizado para unificar os presos do mesmo bloco (prédio), da mesma galeria (parte desse prédio) e do mesmo setor de trabalho. A final da última semana foi entre os atletas dos setores, que têm mais tempo livre para jogar, logo após o horário de almoço, nos pátios de visita dos familiares, que são próximos à entrada do presídio e coloridos de todo tipo para minimizar o impacto das grades para os pequenos. Apenas 30% dos presos da PCE estão envolvidos em atividades educacionais ou laborais, com possibilidade de remição: 322 trabalham em canteiros internos ou externos (empresas), 93 estudam e 90 fazem remição por leitura – os demais 70% aguardam vaga nos programas.

O torneio dos internos deve se encerrar ainda em maio, e se prolongou além do outro porque os presos jogam apenas no pátio de sol, uma vez por semana. A unidade já estuda uma espécie de cruzamento entre os campeões para atestar a soberania do presídio. A PCE tem seis blocos com quatro galerias cada. São 420 presos por bloco, em média. As galerias se dividiram em times A e B, ou seja, cada bloco montou oito times, que se cruzaram em turno e returno. Os vencedores ainda jogarão entre si para definir o campeão dos blocos.

E também há ideia de um cruzamento com a equipe campeã da Penitenciária Central do Estado – Unidade de Progressão (PCE-UP), projeto pioneiro do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário do Paraná. Essa unidade abriga 160 presos que estão prestes a progredir para o regime semiaberto e entrega estudo e trabalho a todos em tempo integral.

Para Antonio Nery de Souza Junior, o Toninho, agente penitenciário que organiza as tabelas ao lado dos presos, e que trabalha há uma década na unidade, a ideia do torneio é entreter e dar responsabilidade aos presos. “É um projeto que começou com o chefe de segurança, José Luis Siscato, e foi desenvolvido por nós e pela equipe pedagógica. O futebol tem esse poder no Brasil, é um esporte que une as pessoas”, conta.

Já a presidente do Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba, Isabel Kugler Mendes, afirma que o esporte é importante na questão física e psicológica dos presos. “Nós vivemos um momento de questionamentos no sistema penitenciário nacional, e pequenas iniciativas como essa mostram que apenas a boa vontade e a seriedade podem mudar o destino dessas pessoas, e é isso que a Lei de Execução Penal determina. Eles contraíram uma dívida com a sociedade. Poderia ser uma televisão, um carro. Mas a dívida deles é com a sociedade. Por isso, nós temos que pensar na dignidade dessas pessoas para o momento da volta”, pondera. O Conselho da Comunidade foi responsável pela premiação do torneio.

Esse é o segundo projeto do órgão da Execução Penal da unidade. O primeiro é o laboratório de pintura de quadrosO Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba também é parceiro da PCE na reforma da portaria, que deve ficar pronta ainda no primeiro semestre.

Cerca de 300 presos se envolveram no campeonato. Os times puderam inscrever apenas seis jogadores (cinco titulares e um reserva), com duras possibilidades de substituição: apenas quando o preso mudou de regime e deixou a unidade. Se os atletas sofressem sanções disciplinares durante o campeonato, por portar celular ou drogas, ou tentar fugir e desrespeitar os agentes públicos, o time não poderia trocar o jogador e entraria em quadra com um atleta a menos. De acordo com o regulamento, a manutenção da paz na unidade era condição sine qua non (essencial) para a sequência dos jogos.

Cada partida foi acompanhada por um juiz (geralmente de outro bloco) e um auxiliar, também neutro. “Esse regulamento foi construído para pacificar ainda mais o ambiente. O preso que cometesse algum tipo de falta grave, como no campo, seria expulso”, afirma Toninho. “Além disso, os presos foram convidados a participar do campeonato. Tem os que não gostam. Por isso, nós estamos montando para o segundo semestre uma atividade de capoeira nos pátios de sol”.

Cada vitória pesou 3 pontos e o empate apenas 1, durante a fase classificatória. Os que tinham tênis, jogaram protegidos. Alguns pelejaram descalço, conforme os costumes extramuros do país.

A Lavanderia, campeã do torneio
Cada time pode ter seis inscritos (cinco titulares e um suplente)
Presos rezam antes dos jogos
Detalhe da final, Faxina x Lavanderia
A Faxina, vice-campeã
Todos os times de setor do Campeonato de Futebol PCE 2017