A gênese do bem: esposa de preso recolhe papelão para alimentar a família

Juliana, 29, e Thiago, 6, “uma mão cheia e mais um”

A catadora de papel Juliana Azambuja de Oliveira, 29 anos, estudou até a 6ª série. Mal lê ou escreve duas palavras. Ela descansou a infância apenas até os 5 anos, e logo em seguida passou a acompanhar as atividades da mãe e das irmãs mais velhas em torno de um carrinho pelas ruas de Ponta Grossa, nos Campos Gerais paranaenses, onde nasceu e aprendeu a fazer o que sabe. Thiago, 6, a cara do jogador de futebol belga Michy Batshuayi, estuda no Colégio Estadual Hildebrando de Araújo com o “irmão do meio”, Lucas, de 9. Enquanto eles estudam, das 8h às 12h, religiosamente, Juliana e Matheus, 14, o mais velho, separam a arrecadação do dia anterior para vender com a máxima urgência. À tarde, mãe e primogênito singram as ruas dos bairros Cristo Rei e Ahú em busca de recicláveis, enquanto os pequenos ficam sob os cuidados da avó, mãe de Juliana, a catadora número 1 da família.

Matheus não estuda mais. Parou na 6ª série. Agora, com 15, raspando nos 16, não é aceito nos colégios do bairro. Dizem que é grande demais. O Ceebja (Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos) também não o acolhe, diz que lhe faltam anos formados na infância. Esse impasse e um pedido de transferência do marido, Maicon, apenas 22, que está preso na delegacia de Araucária, trouxeram Juliana até o Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba na tarde desta quinta-feira (8).

Solução emergencial: a psicóloga Vera Silano, do quadro do Conselho, já está em busca de uma escola que aceite o jovem que precisa concluir os ensinos Fundamental e Médio. Já a transferência para o sistema penitenciário da RMC foi agilizada por intermédio do órgão. A autorização foi anexada ao processo há 40 dias, mas a mudança tinha sido deixada de lado pelo Comitê de Transferência de Presos (Cotransp). Até o fim da semana, ele deve se mudar para Piraquara.

Maicon está há quatro meses detido em Araucária. Antes de ser recapturado pela Polícia Militar, estava há pelo menos oito meses foragido da Colônia Penal Agroindustrial (CPAI). Pela falta grave, a data de progressão do seu regime mudou e ele ficará preso em regime fechado até dezembro deste ano. Nos oito meses da liberdade proibida, ele catou papel com a mulher. “Não faltou um dia”, ela garante, como se fosse uma juíza que assina as condições impostas a um apenado na rua.

Maicon não é pai dos meninos, que são filhos de outros homens. Juliana não tem e não quer mais contato com eles. Thiago (apóstolo), Lucas e Matheus (evangelistas) chamam Maicon de pai. “Ele nunca levantou a mão para os meus filhos, nunca deixou faltar nada em casa. Quando estava na rua, nos ajudava a catar papel. Todos os meus filhos respeitam muito ele”, diz Juliana. Além de Ponta Grossa e Curitiba, a família já passou uns anos em São Paulo capital, também sob inúmeras dificuldades.

Os quatro moram na Vila Torres, ou “no Capanema”, numa casa muito simples de apenas uma peça, que agrega banheiro, uma geladeira, um fogão, um botijão, um beliche e um colchão que é jogado no chão para o casal. O aluguel custa R$ 350. A família arrecada R$ 30 por dia, de segunda a sábado, de modo que necessita das corridas diárias. As vendas acontecem no próprio bairro: um ferro-velho paga R$ 0,30 pelo quilo do papel, R$ 0,33 pelo quilo do papelão, R$ 0,20 pelo quilo do plástico e R$ 3,50 pelo quilo da latinha de metal (“difícil de ser encontrada”). Os restos que sobram, que não interessam ao dono do negócio, são trocados por verdura com a Prefeitura de Curitiba. O caminhão passa na Vila Torres duas vezes por mês, às terças-feiras.

Juliana não deixa que os filhos faltem na aula, “façam coisa errada” ou não digam um simples obrigado. Todos são educadíssimos, militares. A família faz parte do programa Bolsa Família, do governo federal, a ainda recebe auxílio do CRAS (Centro de Referência da Assistência Social) da regional do Cajuru. O fogão foi um presente da mãe de Juliana através da solidariedade do CRAS. “Já a geladeira nós achamos na rua”.

As crianças também passam pela UPA (unidade e pronto atendimento) mensalmente para verificar peso e nutrição. “É uma questão que aprendi desde pequena, minha mãe fazia isso conosco”, conta Juliana.

Aos trancos e barrancos, ela segue atrás de um trabalho. Pediu que uma amiga a ajudasse a escrever e imprimir um currículo, e já distribuiu os papéis pelos hospitais de Curitiba. Eles contam um pouco de sua história, mas não tudo. Juliana quer trabalhar com serviços gerais e carteira assinada. No passado, já teve acesso às garantias da CLT em um vínculo com uma empresa de ônibus, limpava os bancos após as viagens dos outros. Mesmo assim, não deixou de catar papel. “Acho até que nós nascemos para isso”, conta, como empreendedora que toca os contratos da família no caminho do bem.