Professoras levam tsurus e mensagens de prosperidade para o sistema penitenciário

Catrin Cramer e Rosangela Yzumi Azuma: a chave do cadeado pode ser uma ave

Desde o final de abril, as professoras Rosangela Yzumi Azuma (neta de japoneses) e Catrin Cramer (alemã de coração brasileiro) desenvolvem no complexo prisional de Piraquara, em parceria com o Conselho da Comunidade, um trabalho inédito e contínuo de confecção de origamis, contação de história e pacificação. O projeto tem como objetivo levar a cultura oriental de artesanato para cinco unidades do sistema penitenciário e a produção de 64 mil tsurus (ave sagrada do Japão) para o VI Encontro Estadual dos Conselhos da Comunidade, da Feccompar, que acontecerá entre os dias 25 e 28 de setembro em Curitiba.

Foram contempladas com a iniciativa a Penitenciária Central do Estado (PCE), Penitenciária Estadual de Piraquara I (PEP I), Penitenciária Estadual de Piraquara II (PEP II), Casa de Custódia de Piraquara (CCP) e Penitenciária Feminina do Paraná (PFP). Ao todo, cerca de 160 presos espalhados em 12 turmas assistiram duas aulas nos últimos meses: a primeira inteiramente dedicada à história de Sadako Sasaki e a segunda focada no aprimoramento das dobraduras. Nos encontros, os presos também recebem pilhas de papéis coloridos para continuarem o trabalho dentro das celas.

A alemã e a nikkei, neta de um samurai que chegou ao Brasil antes da 1ª Guerra Mundial, são idealizadoras do projeto 1000 Tsurus Pela Paz no Brasil, desenvolvido gratuitamente às quintas-feiras na capital, e também representam a Câmara de Mediação e Arbitragem Dialogar e a ONG Projeto DePaz Soluções Criativas, especializadas em intervenções que melhoram a justiça brasileira.

Nesta quarta-feira (05), o Conselho da Comunidade acompanhou uma das aulas, na PCE, maior unidade do Paraná. Os encontros focam principalmente nos conceitos de fartura e prosperidade para os orientais, representados no tsuru, que, por sinal, é a logomarca do Programa Recomeço. “A fartura para o japonês não é uma montanha de dinheiro. Fartura é o reconhecimento de um trabalho alcançado. Fartura é a valorização. Nós nos sentimos desvalorizados diariamente pelos outros, por questões estéticas, profissionais… As privações de liberdade desvalorizam. A concepção oriental é exatamente outra: a valorização de qualquer trabalho, porque todos são essenciais para a sociedade”, afirma Rosangela Azuma, que é formada em Direito.

De acordo com a professora, essa concepção é explicada num paralelo com as plantações de arroz, tão cotidianas no Japão. “Prosperidade é o que há em abundância. Se a plantação oferece bons frutos, não há porque brigar. Ao menos não pela prosperidade. Quando os tsurus (espelho de uma garça) sobrevoavam a plantação, havia harmonia na sociedade. Era essa a mensagem”, conta.

Os origamis também criam uma analogia com a história e a luta por Direitos Humanos. De acordo com as professoras, as dobraduras representam um equilíbrio com o que está dentro, fechado, guardado, protegido. “No Japão, é comum que as pessoas levem mil folhas de papel para uma pessoa que está muito doente, que está ferida, traumatizada ou em vias de morrer. O povo oriental acredita que mil tsurus dobrados dão direito a um pedido atendido”, explica.

Já a relação com o conjunto de leis que representa todos os seres humanos também é evidenciada durante as aulas. “Os Direitos Humanos são as garantias de todos os cidadãos. É importante que nós tenhamos a compreensão de cada papel na sociedade, do convívio com o outro, da necessidade da manutenção da paz no mundo”.

A ave sagrada japonesa se tornou ainda mais simbólica com a menina Sadako Sasaki. Ela nasceu durante a 2ª Guerra Mundial. No ano do seu nascimento, seu pai foi convocado para ingressar no exército como enfermeiro, a fim de cuidar dos soldados doentes ou feridos do Hospital do Exército de Hiroshima. No dia 6 de agosto de 1945, data da primeira bomba, Sadako e a família almoçavam em casa e, milagrosamente, ela sobreviveu ao desastre humanitário e também à radiação nos anos sequentes.

Dez anos mais tarde, no entanto, ela adoeceu, diagnosticada com leucemia. Aos 12 anos, Sadako tentou dobrar os mil tsurus, como narra a lenda, em busca de fortuna, de vida, mas faleceu pouco antes da meta. Diz a tradição que os amigos completaram o pedido (faltavam cerca de 400) e os mil tsurus foram enterrados com ela. A morte uniu crianças de todas as escolas japonesas. Em 1957, a cidade de Hiroshima, ainda parcialmente devastada, inaugurou o Monumento da Paz às Crianças. A inscrição gravada na pedra em frente à escultura preserva esse momento de tragédia incomparável: Este é o nosso grito. Esta é a nossa oração. Para a construção da paz no mundo.

Para Isabel Kugler Mendes, idealizadora da logomarca do Conselho da Comunidade e do projeto, as aulas servem para oferecer um novo olhar para os presos. “Oportunidade é o principal alvo do Conselho, principalmente diante das dificuldades em ofertar educação e trabalho. Os tsurus começam a ganhar forma nas salas de aula e vão para o interior da unidade, como se quisessem conhecer toda a história daquele ambiente antes de sair. Essa é a mensagem que queremos passar para todo o sistema penitenciário: a prosperidade parte da oportunidade, é por isso que a sociedade não pode fechar os olhos para o que acontece nos presídios”.

O projeto deve terminar no final de julho. Um dos presos que participou das atividades nesta quarta disse que essa é a primeira vez em dez anos que ele assiste projeto contínuo similar. “Todas as unidades estão mandando a mesma mensagem. Isso prova que aqui dentro tem muita gente que quer trabalhar, que quer mudar de vida. Que não teve oportunidade lá fora e quer construir uma nova história aqui dentro”. A PCE abriga 1.700 internos. Apenas 30% participam de atividades educacionais, como o projeto Arte no Cárcere, também levado pelo Conselho da Comunidade.

Catrin Cramer vai mais longe. “São 64 mil tsurus, 64 pedidos para serem atendidos. Acho que é essa a mensagem que queremos deixar”.

Tsurus são símbolos de paz e prosperidade
Cerca de 160 presos vão confeccionar 64 mil tsurus
Esse homem de 40 anos cumpre o décimo ano de detenção. “É a primeira vez que fazemos isso”, afirma

Dialogar

A Câmara de Mediação e Arbitragem Dialogar, criada em 2016 e tocada pelas professoras, já treinou cerca de 30 pessoas para administrar conflitos sociais. As demandas chegam através dos Conselhos Tutelares, associações de bairro e dos próprios integrantes. Uma das últimas mediações envolveu os condôminos e um vizinho que criava 34 cachorros no apartamento.

Catrin Cramer e Rosangela Yzumi Azuma também participam do projeto 1000 Tsurus Pela Paz no Brasil. Elas se reúnem semanalmente, às quintas-feiras, das 17h às 18h, no Espaço Elisa Billwiller, nas Mercês, em Curitiba. A atividade é gratuita.