Conselho da Comunidade e Depen empregam egressa no Museu Penitenciário

Quinhentas mil folhas de papel dos prontuários de vinte mil presos entre 1909 e 1979 compõem o acervo textual do Museu Penitenciário do Paraná. A partir deste mês, esses fichários vão passar por um intenso processo de restauração sob o comando de Eliane Regina Gomes, 56 anos, contratada em mais uma parceria entre o Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba e o Depen. A artista plástica e restauradora é egressa do regime fechado e cumpre o restante da pena com tornozeleira eletrônica.

Os documentos do Museu estavam acomodados em prateleiras empoeiradas a espera de reparo desde novembro do ano passado, quando encerrou-se a parceria entre o antigo Centro de Regime Semiaberto Feminino (CRAF) e o Depen. Em março do ano passado, duas presas foram contratadas para fazer essa restauração, mas elas foram desligadas do quadro poucos meses depois com a obtenção do direito de cumprir o restante da pena em regime domiciliar e o fechamento do CRAF, que deu lugar ao Escritório Social – local destinado a acompanhamento dos presos do regime monitorado.

O processo de restauração que Eliane vai comandar consiste em recuperar os documentos com trinchas e flanelas e retirar as bordas defeituosas com uma lixa muito fina. A reconstrução dessas bordas é feita com papel japonês gramatura 9 e uma mistura de cola e sal de sódio. Após a secagem, o prontuário antigo é reordenado e reacomodado em pastas feitas com cartolina branca. Atualmente, apenas 1% dos papéis do Museu está devidamente catalogado.

De acordo com Edevaldo Miguel Costacurta, diretor da Escola de Serviços Penais do Paraná (Espen), entidade mantenedora do Museu desde 2014, essa atividade traz resultados significativos para o sistema penitenciário e para a egressa.

“Inicialmente, mantém preservado um registro da história do sistema penal do Paraná, que mais tarde poderá ser aberto à população em geral para consulta. Ao mesmo tempo, cumpre o papel social de reinserção das pessoas que cumprem suas penas, possibilitando um recomeço através de uma qualificação diferenciada”, destaca. “Depois da revitalização, vamos pensar na digitalização para poder oferecer ao público em geral a história do sistema penitenciário do Paraná. Nós precisamos que esse trabalho seja contínuo”.

Para a presidente do Conselho da Comunidade, que acompanha a luta de Eliane há 25 anos, a parceria é a chance de restabelecer uma atividade fundamental de memória para o Paraná e de emprego para uma egressa que trabalha como artista plástica há mais de trinta anos. “A Eliane nos apresentou um projeto, nós levamos para o Depen e estabelecemos a parceria. Ele reforça a nossa parceria com a Secretaria de Segurança Pública na geração de oportunidades e restabelece as condições dela encerrar a sua pena de maneira digna, trabalhando em prol do bem público”, aponta Isabel Kugler Mendes.

Nesta terça-feira (1º), Eliane recebeu um treinamento na sede do Museu Paranaense. Ela trabalhará de segunda a sexta-feira em horário comercial na sede do Escritório Social, no bairro Atuba. Na próxima segunda-feira (7), Depen e Conselho da Comunidade vão celebrar a parceria em uma cerimônia na Espen.

Após idas e vindas na prisão, Eliane perdeu o contato com as duas filhas. “Meu maior sonho é que voltem a falar comigo. Que voltem a me encarar como mãe, como uma cidadã normal”, conta. Sobre a oportunidade, rasga agradecimentos. “Já trabalhei com Arte Sacra, restauração em igrejas. Entrei com 18 anos na Faculdade de Artes do Paraná (FAP). Nunca deixei de trabalhar no sistema penitenciário, mas fora dele é difícil conseguir emprego. Graças ao Conselho da Comunidade e ao Depen eu vou poder mostrar o que sei fazer de melhor”.

O Museu

Além do meio milhão de fichas, o Museu Penitenciário do Paraná também guarda 83 grandes livros de registro, réplicas dos uniformes de presos e agentes penitenciários, fotos, mobiliário do presídio do Ahú (o mais antigo do estado), uma máquina tipográfica que atendia o Paraná antes do surgimento da Imprensa Oficial e a réplica da carroça condutora de presos de 1909.

Mas a atração principal é um uniforme de agente penitenciário feito por um preso com um saco plástico preto. “Foi um detento da Casa de Custódia de São José dos Pinhais”, conta Jeferson Walkiu, atual diretor do Complexo Médico Penal (CMP), em Pinhais, e ex-agente da unidade de São José. “Ele recortou as letras em folha de papel e ia conseguindo sair numa boa. Ele chegou a subir até a guarita dos policiais militares. Naquele momento, o chefe de segurança foi avisado de que um agente estaria no telhado, mas ele não lembrava de ter mandado ninguém pra lá. Quando fomos ver, era um preso. Ele só não conseguiu fugir porque entrou em luta corporal com um policial, que conseguiu segurá-lo. Seria uma das fugas mais bem tramadas da história do Paraná”.

Linha do tempo do sistema penitenciário do Paraná
Linha do tempo do sistema penitenciário do Paraná
O famoso colete de saco plástico do fugitivo é uma das atrações do museu