Egresso conclui curso de cabeleireiro fazendo escova em funcionárias do Conselho

Mariana Pedroso e o aluno

Termina nesta sexta-feira (11) o curso de cabeleireiro do egresso Chris, que cumpre o terço final de sua pena no regime aberto. Nos últimos dois meses, de segunda a sexta, das 18h30 às 21h30, ele teve como segunda casa a Escola Profissional Maria Ruth Junqueira, no Centro, parceira do Conselho da Comunidade para ajudar a empregar pessoas que já passaram pelo regime fechado. Na terça (8), para celebrar a conquista, Maria José de Paula e Mariana Pedroso, auxiliares administrativas do órgão, fizeram escova no salão da instituição.

Chris conheceu o Conselho da Comunidade através de outros egressos. Ele saiu do regime semiaberto, na Colônia Penal Agroindustrial (CPAI), no dia 13 de março, e um mês depois, no dia 19 de abril, trouxe o currículo em busca de um emprego.

Durante o atendimento, contou que não conseguiu sequer um sim informal nesse período. No currículo, ele descreve em português muito simples que trabalhou em empresas que fabricam calhas e bancos de madeira, em uma lanchonete e em um centro esportivo.

No começo das passadas pelo Conselho, ele também recebeu uma cesta básica. Diante da emergência de alguns casos, o órgão adotou a doação de mantimentos como política pontual.

Chris é pai de duas crianças, uma com cinco anos e outra com seis, e mora com a mulher e a sogra no bairro Pinheirinho, na Zona Sul de Curitiba. O seu pai é falecido e a mãe está presa em São Paulo por conta do tráfico de drogas – que é a base das condenações que envolvem mulheres.

Ele foi preso três vezes. Tinha apenas 12 anos na primeira, quando ficou atrás dos muros de numa instituição de menores infratores. Na segunda, aos 20, foi preso por tráfico – foi condenado a 1 ano e 8 meses de pena em regime semiaberto. E a terceira vez foi num assalto. Chris estudou até a 5ª série e morou na rua, na capital paulista, longe dos olhos de qualquer um, dos 14 aos 18 anos.

“Vim para Curitiba com a ideia de ter uma vida melhor, mas novamente fiz coisas erradas. Mas só depois de passar pelo sistema penitenciário daqui me toquei que não queria mais isso pra mim”, narra. Ele conta parte da sua história em uma carta entregue ao Conselho.

Diante desse cenário, o órgão ofereceu a ele um curso de cabeleireiro, já que ele relatou que havia trabalhado rapidamente com as tesouras no sistema. Nos últimos meses, oito egressos foram encaminhados para a Escola Profissional Maria Ruth Junqueira para cursos de panificação, confeitaria, eletricista, cabeleireiro e maquiagem. Alguns já concluíram e outros seguem estudando.

“A ideia, com o aprendizado, é que eles possam montar pequenos negócios nos próprios bairros, trabalhar com a própria comunidade. Ou que eles sejam autônomos e possam atender ocorrências de marido de aluguel e tenham cursos para trabalhar em alguns lugares que exigem certa especialização”, conta Isabel Kugler Mendes, presidente do Conselho da Comunidade e idealizadora dos cursos. Eles fazem parte de um pacote de cerca de 50 projetos que estão em andamento ou já foram executados sob o guarda-chuva do programa Recomeço, que busca gerar, acima de tudo, oportunidade.

Maria e Mariana

Chris havia convidado as funcionárias do Conselho para participar de uma aula no dia 6 de julho, quando esteve no órgão pela última vez atrás dos materiais para concluir o curso (escovas, tesouras e secador). Na terça (9), Maria e Mariana resolveram fazer uma surpresa. “Nós chegamos lá e toda a família dele estava assistindo. Os filhos, a esposa. Foi emocionante”, conta Maria.

Para Mariana, a participação fecha um ciclo. “Nós atendemos muitas pessoas por dia e encaminhamos elas para trabalho, para o Escritório Social, para conversar com a Dra. Isabel. Desta vez, pudemos ver que aquele primeiro atendimento deu resultado. Ela está trabalhando e trabalhando muito bem”, conta.

De acordo com Maria, a professora disse que Chris foi o mais esforçado da turma durante esses dois últimos meses. “Dá pra ver que ele tem perseverança, que tem o desejo de mudar de vida. Ele ajuda os colegas, se interessa pelas aulas. Além disso, a presença dos filhos mostra que ele está disposto a ser um exemplo como pai. Ele não teve essa oportunidade e agora está tentando fazer com que os filhos enxerguem um destino diferente”.

Chris: nome fictício.

Mariana (com o celular) e Maria durante a escova
Maria depois da escova