“Corri a São Silvestre com tornozeleira eletrônica”

A medalha e a camiseta de Antonio

Os fogos de artifício rompiam o céu da cidade de São Paulo enquanto Antonio Carlos Alexandre, 53 anos, lutava contra o sono nas cadeiras da área de embarque do Terminal Rodoviário Tietê, maior carrega-malas da América Latina. Pouco antes do fim de 2017 ele cruzara a linha de chegada da 83ª Corrida Internacional de São Silvestre, na Avenida Paulista. “Corri a São Silvestre com tornozeleira eletrônica. Talvez o único”.

Antonio começou a cumprir pena com tornozeleira eletrônica no começo de dezembro. Seu nome foi incluído em um mutirão carcerário que concedeu 562 progressões de regime nas três Varas de Execuções Penais de Curitiba. Essas revisões coletivas são coordenados pelo Tribunal de Justiça do Paraná e contam com a participação da Defensoria Pública e do Ministério Público. O Poder Judiciário estadual optou pelo mutirão para desafogar as carceragens das delegacias do litoral do Paraná para a Operação Verão 2018.

A participação na São Silvestre foi autorizada pela juíza Luciani de Lourdes Tesseroli Maronezi, da 2ª Vara de Execuções Penais de Curitiba, responsável pela sua pena. A magistrada permitiu o deslocamento para outra capital e os pernoites de quatro dias longe de casa. O Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba, órgão da execução penal que assiste presos e egressos, ajudou com a inscrição da competição (R$ 170).

Essa foi a quarta São Silvestre de Antonio. Ele passou por experiências similares em 2012 e 2013 e dormiu em um hotel de beira de rodoviária em 2011. Os percursos mudaram ao longo dos últimos anos – a largada saiu da frente do MASP para a Rua Frei Caneca -, mas o seu roteiro particular é bastante parecido: ele luta por uma autorização judicial, viaja para São Paulo no dia 30, pega o kit da corrida, passa uma noite no Tietê, corre os 15 km da São Silvestre, coloca no pescoço a medalha de participação, descansa um pouco, toma um ônibus para a rodoviária, passa o Réveillon entre desconhecidos e volta para cumprir a pena na capital do Paraná.

As participações também foram solitárias em 2012 e 2013, mas em 2011 ele teve companhia. Antonio chegou um minuto depois de outro preso, seu colega de Colônia Penal Agroindustrial (CPAI), unidade de regime semiaberto em Piraquara, na região metropolitana de Curitiba. Os dois corriam juntos nas ruas de barro e pedras da CPAI. O amigo depois migrou para o estudo do Direito e acabaram se separando. Antonio só sabe que ele continuou correndo do regime semiaberto até a faculdade. Eles pagaram R$ 70 por duas camas na região do Tietê.

Além da Corrida dominada pelos quenianos e etíopes, Antonio tem experiência em maratonas (42 km). Correu a Maratona do Rio de Janeiro (2011), a Maratona de São Paulo (2012) e duas maratonas de Curitiba (2001 e 2011). Também participou de duas corridas (10 km) patrocinadas pela Volvo, duas pela Bosch, duas pela Copel, duas pela Polícia Militar do Paraná (PM-PR) e duas comemorativas ao Dia dos Trabalhadores. Terminou em 9º lugar, sua melhor colocação, em uma dessas corridas, única vez em que subiu ao pódio.

Antonio começou a correr em 2001, aos 37, muito antes de atravessar as grades do sistema penitenciário paranaense, onde já cumpriu oito anos no regime fechado e um ano e oito meses no semiaberto. Na época, ele trabalhava com carrinho de mão no Ceasa (central de abastecimento de alimentos de Curitiba e região metropolitana). “Trabalhei 15 anos subindo e descendo as rampas com o carrinho cheio de abacaxis, maçãs, tomates, abobrinhas”, afirma. Um dos seus treinos era percorrer a distância do Parque Barigui até a Pedreira Paulo Leminski – trecho de 8,5 km que atravessa quatro bairros de Curitiba.

Antonio garante que treinou em todos os finais de semana do ano passado na CPAI. Ele é do Maranhão e não tem familiares pela região, ou seja, tinha os sábados e os domingos livres para correr.

O espaço em Piraquara tem algumas dezenas de hectares, mas seus passos eram contados pelos agentes do Serviço de Operações Especiais (SOE), espécie de Bope das penitenciárias. Eles impediam que Antonio corresse mais de 500 metros por dia, o que dava 1 km de treino (ida e volta). O terreno também não tem nenhuma grande subida ou descida, o que dificultava o treinamento especializado. Entre 2011 e 2012, na sua primeira passagem pelo espaço, ele percorria 2 km (podia correr até 1 km do raio da penitenciária). “Havia mais tolerância”, afirma.

A maior dificuldade narrada pelo egresso do regime fechado é a ausência de uma dieta balanceada. “A comida do sistema penitenciário não leva em consideração o perfil de um atleta. Nós perdemos muitos sais minerais na corrida e eu não tinha como repor. Nessa última corrida lutei durante muito tempo contra as cãibras”, conta. Outra dificuldade está no pé. “Eu uso esses tênis bem simples. Eles não são tênis de corrida. Mas é o que dá para ter”.

Apesar das dificuldades e da solidão, Antonio conseguiu virar o ano empregado. Ele trabalha como auxiliar de serviços gerais no Instituto Pró-Cidadania, entidade do terceiro setor de Curitiba, e mora em Piraquara. As regras da tornozeleira eletrônica o fazem dormir em casa todos os dias das 23h às 6h e não permitem sua saída aos finais de semana. Ele terminou o Ensino Médio no sistema penitenciário e agora pretende cursar Enfermagem.

Atualmente, Antonio está treinando na estrada vicinal que acompanha a rodovia da Serra da Graciosa. Ele vai começar a voltar correndo do trabalho. O percurso entre o bairro Jardim Botânico, em Curitiba, e a cidade da região metropolitana tem pelo menos 10 km. “Não todo dia, mas já dá uma maratona por semana”. Ele foi condenado por homicídio e sua pena extingue em 2024.