Quadros de presos do CMP participam de exposição mundial de arte carcerária

Corredor principal do Complexo Médico Penal, em Pinhais

Três quadros de três presos do Complexo Médico Penal (CMP), em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, participaram neste ano da competição oficial Art and Prison e.V., em Berlim, na Alemanha. Eles concorreram com outros 368 participantes de 23 países diferentes. O tema da mostra foi Between Here and There (Entre aqui e ali, na tradução literal). Os quadros foram expostos no Museu Nacional de Liechtenstein, país apertado entre a Suíça e a Áustria, e em Paris, na França, e Örebro, na Suécia.

Belmiro, Marcelo e Edno respondem medidas de segurança (aplicadas a inimputáveis) e participam do projeto Oficinarte, desenvolvido pela professora Odília Vallim na unidade prisional há 12 anos.

“Nosso material de trabalho é doado pelo Conselho da Comunidade de Curitiba, Dra. Fabiane Pieruccini (juíza substituta de 2º Grau do Tribunal de Justiça do Paraná), pela própria unidade e funcionários. Ficamos sabendo dessa exposição na Alemanha, mas não tínhamos logística suficiente para mandar os quadros para a Europa. Depois descobrimos que o Depen tem uma parceria com os Correios. Eu não acreditava que eles iriam chegar lá, mas chegaram”, afirma Vallim.

Os quadros foram pendurados em paredes europeias no final do ano passado, mas a confirmação só aconteceu em março deste ano, quando a própria competição oficial mandou um ofício para a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná agradecendo a participação dos três.

De acordo a exposição Art and Prison, 47 quadros brasileiros participaram da competição neste ano – segundo país com maior número de inscritos, atrás apenas da Polônia, com 78 quadros. Todos os continentes mandaram obras, mas a Europa dominou o cenário com a participação de pelo menos 245 presos de Alemanha, Eslováquia, Suécia, Letônia e Inglaterra.

As obras brasileiras não ficaram entre os dez quadros finalistas. Os primeiros lugares foram entregues para presos de Zakład Karny Rawicz, maior prisão da Polônia (1º lugar); Rimutaka Prison Wellington, unidade na Nova Zelândia (2º lugar); e Riga Central Prison, na Letônia (3º lugar). Completaram o top 10 obras da Alemanha, Bielorrúsia, Inglaterra, Estados Unidos, República Tcheca, Letônia e Eslováquia.

Odília Vallim está no CMP desde 2000 e diz que a participação por si só pode ser encarada como uma conquista. “O Belmiro está há 20 anos no Complexo Médico Penal. Ele não tem sequer RG. E ele é um faz-tudo dentro da unidade: empurra os cadeirantes para cima e para baixo, dá banho nos colegas, até há algum tempo lavava os presos que eventualmente vinham a óbito dentro da unidade. O Edno não tem família, ninguém quer saber dele. E o Marcelo era um menino de rua. Eles não tem mais família e precisavam sair daqui para serem tratados em uma casa de apoio com estrutura de atendimento”, afirma.

A unidade recebeu esse nome em 1993 no governo de Roberto Requião. Até então o lugar, às margens da Represa do Iraí, era conhecido como “manicômio judiciário”. Cerca de 250 dos 720 presos do CMP respondem medidas cautelares ou medidas de segurança.

Oficinarte

Odília Vallim e o Conselho da Comunidade de Curitiba têm uma parceria de longa data. O Oficinarte recebe doações de quadros, pincéis, rolos e material para escultura.

A juíza Fabiane Pieruccini, do TJ-PR, também apoia o trabalho dos presos. Ela tem dois quadros nas paredes de casa e dez no gabinete. Quando instalou as audiências de custódia em Curitiba, a magistrada levou os quadros para a Central de Custódia. Eles aparecem na foto de inauguração do projeto, em 2016, ao lado do ministro Ricardo Lewandowski, que à época presidia o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

“Os quadros são minha isca. Permitem o ingresso no assunto do encarceramento. Eles servem para desarmar. O trabalho da Odília tem muito amor e resistência. Ela consegue extrair o essencial das pessoas com pouquíssimos recursos”, afirma a magistrada. “Os quadros servem para mostrar que os homens são bem maiores que seus erros”.

O Oficinarte funciona em uma sala do corredor principal do Complexo Médico Penal, ao lado da biblioteca, de um laboratório de informática e de um teatro. É o projeto de ressocialização pela arte mais antigo do sistema penitenciário paranaense.

“A arte é um instrumento para interpretar o mundo, e transformar os sentimentos e sensações. Nós trabalhamos com argila, escultura, isopor, pintura. Mas também tem as aulas de violão. Ele foi desenhado originalmente para os presos das galerias 1 e 2, que passam por tratamento psiquiátrico, mas outros acabaram se envolvendo nas atividades”, conta Odília. Atualmente, um preso da 6ª galeria e internos da 5ª também participam das atividades culturais juntos dos demais. Eles foram presos por operações federais ou são ex-funcionários públicos (ex-policiais, ex-guardas municipais, etc).

Os quadros já foram exibidos na Casa Culpi, Museu de Arte Sacra de Curitiba e Museu Oscar Niemeyer, durante as atividades do VI Encontro Estadual dos Conselhos da Comunidade. O site do Departamento Penitenciário do Paraná também disponibiliza um acervo online de algumas obras. O projeto ainda está em atualização.

As aulas são diárias e acontecem em dois períodos, de segunda a sexta.

Art and Prison

A associação Art and Prison se tornou um projeto depois de uma exposição em Roma, na Itália, intitulada Arte da Prisão, em 2007, mas foi oficialmente registrada dois anos depois em Berlim, na Alemanha. De acordo com o site da instituição, o local é simbólico.

“[Berlim] é a cidade na qual um muro se rompeu. O mesmo muro que separou pessoas por décadas. As paredes da prisão também separam as pessoas, mas estamos convencidos de que, nessa situação, a arte pode construir uma ponte de entendimento”, afirma um trecho do manifesto da associação.

Os objetivos do projeto são aumentar a consciência sobre a vida atrás das grades; mostrar que “arte de qualidade” pode surgir na prisão; motivar artistas de todo o mundo para contribuir de forma criativa para melhorar a situação das prisões; realizar exposições e concursos internacionais; apoiar projetos sociais; e servir como um fórum de diálogo sobre o cárcere.

Confira as obras dos presos paranaenses

Quadro de Edno
Quadro de Belmiro
Quadro de Marcelo

Confira os primeiros colocados

1º lugar – prisão na Polônia
2º lugar – prisão na Nova Zelândia
3º lugar – prisão na Letônia

MAIS INFORMAÇÕES: Art and Prison

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