Curitiba inaugura o primeiro café de monitoradas do país

O café do Água Verde está disposto a quebrar preconceitos. Foto: Divulgação/Mora Constrói

Um antigo posto policial em um bairro de classe média alta de Curitiba foi o lugar escolhido pela startup Geração Bizu para colocar de pé o primeiro café que só emprega mulheres monitoradas por tornozeleira eletrônica do país. Ele fica em uma encruzilhada entre a Av. Água Verde e a Rua Bento Viana, na Praça Maria Bergamin Andretta, a poucos metros de um supermercado e da igreja Sagrado Coração de Jesus, uma das mais tradicionais do Paraná.

A ideia saiu da cabeça acelerada da assistente social Fernanda Rossa, fundadora da startup de empreendedorismo comunitário que foi concebida em um programa de aceleração do campi local da Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR). O intuito do Geração Bizu, que toca ao lado da psicóloga Carolina Miranda do Amaral e Silva, é acompanhar os estágios de desenvolvimento pessoal e profissional nas atividades de reintegração de egressos à sociedade.

O café 7 Espresso é a realização do segundo passo desse planejamento. O primeiro foi a criação da parceria com o Escritório Social do Paraná, braço do poder público estadual para acompanhar monitorados. Nos últimos meses o Geração Bizu selecionou e encaminhou pelo menos quatro mulheres para o mercado de trabalho – uma fábrica de doces, uma panificadora e um salão de beleza criado da estaca zero. O trampolim com a iniciativa privada foi claro desde o começo: ninguém esconde a tornozeleira eletrônica.

O Bizu tinha poucos meses de existência quando Fernanda Rossa resolveu procurar a prefeitura de Curitiba para entender as licenças para os ambulantes da cidade. A ideia era ajudar egressos e egressas a vender artesanato e docinhos pelos bairros, que é o caminho natural diante dos inúmeros nãos que recebem diariamente. A assistente social ouviu um veto ao comércio mezzo legal mezzo informal, mas ganhou de presente uma parceria público-privada para usar o espaço que havia sondado no Água Verde – a mãe tem um estúdio de pilates na região, de modo que ela conhecia a realidade do posto policial.

O café começou a ganhar forma conceitual, mas as duas profissionais não tinham dinheiro para tocar o projeto. O pai de Fernanda até havia ajudado o Bizu nos primeiros meses, quando elas ainda contavam com um funcionário no setor comercial, mas os recursos minguaram. A assinatura até dizia que elas não precisariam pagar aluguel por dois anos, mas a contrapartida – a reforma física daquele espaço – somava muitos zeros. O imóvel estava abandonado há pelo menos dez anos e servia de teto para moradores de rua e usuários de droga.

O caminho parecia tempestuoso, mas Fernanda conheceu Leopoldo Guimarães, proprietário da construtora Mora Constrói, que trabalha com projetos “contra o relógio”. Foi meio ao acaso. Eles trombaram em uma palestra do empresário em um evento destinado a jovens empreendedores e, no fim de tudo, ela apresentou o projeto, disse que batalhava para tirar mulheres da invisibilidade da tornozeleira eletrônica e que tinha acabado de conseguir um espaço no Água Verde para abrir um pequeno espaço comercial. “Ela me disse que iria fazer um café simples, um balcão, e eu disse que faríamos juntos um café gourmet”, conta Guimarães.

O empresário pediu 70 dias para estruturar o projeto, que deveria manter a regra número um da companhia: o desafio de entregar no dia combinado. O planejamento até corria bem, mas em abril um incêndio destruiu o que restava do módulo policial e quase colocou tudo a ver navios. “O projeto inicial utilizaria toda a estrutura já montada, seria feita apenas uma reforma. Mas aí veio o incêndio. Desanimou, mas logo em seguida fomos em busca de parceiros e conseguimos retomar o projeto. O apoio do Leopoldo foi fundamental para levantar essa ideia”, recorda Fernanda.

A partir disso o empresário lançou outro desafio: construir o café em apenas sete dias. Esse é o motivo do nome, 7 Espresso.

O custo real da obra era de R$ 70 mil, mas o valor acabou caindo para cerca de R$ 10 mil, graças ao apoio de 21 parceiros, entre eles Balaroti, Terra Café, Núcleo P3, Famossul, Inates, Europa Esquadrias de PVC, Weber Quartzolit, Realiza Serviços, Tintas Coral, Lumicenter, Engenheiros da Pintura, Marcela Mesquita e Anua. “A cada dez parceiros que ficavam sabendo do projeto, dez diziam sim para meu pedido de ajuda. Pedi para o Balaroti (empresa de materiais de construção) e eles falaram que eu não precisava nem escolher os produtos mais baratos. A Tintas Coral idem. Os gastos com marcenaria giraram em torno de R$ 700 porque eu tinha equipamentos que puderam ser reaproveitados no café. Todo o projeto foi colaborativo”, conta Leopoldo Guimarães.

A planta foi desenhada pela arquiteta Ana Bonin e a pintura de uma das paredes foi feita pelo artista plástico Neto Vettorello. “Nós nos propusemos a criar um bule em aço escovado na frente do café, a remodelar o paisagismo da praça, a formar a identidade visual dos cardápios. O intuito foi deixar o projeto mais original possível”, completa Guimarães.

O espaço foi inaugurado no penúltimo domingo (22) com festa de pompa, discurso do padre Maurício Gomes dos Anjos, pároco da igreja e personalidade do bairro, e entrevista para o Jornal do Água Verde, que agora é distribuído gratuitamente no balcão.

O café tem duas funcionárias. Elas foram autorizadas pelo juiz Ronaldo Sansone Guerra, da Vara de Execução de Penas de Réus ou Vítimas Femininas e de Medidas de Segurança de Curitiba, a trabalhar longe de casa. Uma delas perdeu o marido assassinado quando estava grávida de seis meses. Ela tem duas passagens pelo sistema penitenciário, todas por crimes ligados direta ou indiretamente ao mercado de drogas. “As mulheres atendidas pelo projeto precisam se sustentar e, em muitos casos, sustentar a família. Queremos fazer com que elas tenham a possibilidade de gerar renda, mas além disso, elas precisam passar também por um processo de desenvolvimento social e emocional porque, sem isso, as taxas de reincidência são muito altas”, afirma Fernanda Rossa. Quando soube que o projeto era dedicado a mulheres, a Consolida doou 4 kg de café de uma linha especial feita só por jovens agricultoras.

A atenção não é exclusiva, mas o direcionamento é importante. De acordo com o Infopen Mulheres, a expansão do encarceramento feminino no Brasil não encontra parâmetro de comparabilidade entre o grupo de países que mais encarcera no mundo. A marca de 42.355 mulheres privadas de liberdade em 2017 representa um aumento de 656% em relação ao total registrado no início dos anos 2000. Os gráficos também mostram que 74% delas têm filhos e apenas 15% concluíram o ensino médio.

O dia a dia ainda conta com a ajuda de Felipe Ângelo, que é chefe de cozinha e cuida dos quitutes e do treinamento das monitoradas. Ele divide as contas e os lucros com o Geração Bizu.

Fernanda Rossa encara o café como a realização de um sonho. Antes do aval da prefeitura de Curitiba e de Leopoldo, mais de 90 empresas viraram as costas para o projeto nos contatos preliminares para empregar egressos do sistema penitenciário. “A prisão pode ser uma questão de ocasião. Quem nunca errou? Então tem esse componente, nós não podemos ignorar isso. E também tem a questão da necessidade de criar oportunidades. Isso leva em consideração a capacidade do ser humano. Esse projeto é totalmente aberto às pessoas, é um convite. Ele serve para romper a barreira do monitoramento”, comenta.

Isabel Kugler Mendes, presidente do Conselho da Comunidade de Curitiba e moradora do Água Verde, diz que a iniciativa transformou a região. “Era comum ouvir pelas ruas comentários preconceituosos. Agora, com o café de pé, eles acabaram”, conta. “Olhar com dignidade para a população que passou pelo cárcere não significa ignorar a dor das vítimas, abandonar os dolorosos processos que respondem ou a violência muitas vezes gratuita e inexplicável. Mas essa discussão é uma demanda do nosso tempo. A questão é: você aceitaria uma maçã colhida por um ex-presidiário se soubesse dessa condição. Tá na hora de se fazer essa pergunta”.

A ideia amoleceu até mesmo o Conselho de Segurança (Conseg) do Água Verde. Houve alguma rejeição no começo, principalmente pelo medo. “O pessoal comentou, como se fosse algo para prejudicar as pessoas, mas é obrigação da sociedade não virar as costas para os egressos. Não somos coniventes com o crime. Mas cumpriu, pagou, e está querendo ajudar, temos que estender a mão. Segurança pública passa necessariamente por oportunidade, impedir a reincidência, que é alta nesse bairro”, conta Paulo Goldbaum Santos, presidente do Conseg.

Os diretores encaram a iniciativa como uma cereja do bolo no bairro. “A criminalidade só vai diminuir com urbanização. O combate é mais eficiente com iluminação pública, asfalto, calçadas bem feitas, árvores podadas. É um conjunto de ações. E isso pressupõe o uso dos espaços pela comunidade. Era um ambiente totalmente abandonado. Agora com certeza vai mudar a região”, completa Goldbaum.

O café tem duas semanas e já recebeu uma sondagem de advogados de São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, para uma “filial”. “Não se trata apenas de oportunidade, mas de revitalizar a cidade. Tomara que essa ideia possa se espalhar”, destaca Leopoldo Guimarães. “O trabalho da Fernanda é importantíssimo porque está ajudando no processo de reintegração social. Nós queremos que as taxas de reincidência caiam. Ninguém tem a história azul como a cor do mar. Eles estão pagando o erro do passado e ao mesmo tempo fazendo algo para a sociedade. É nisso que eu acredito”.

Serviço

Endereço: Av. Água Verde, 948 – Água Verde, Curitiba – PR, 80620-200.

Horário de atendimento: 8h-20h, de segunda à sexta, e 9h-18h, sábados e domingos.

Facebook: https://www.facebook.com/geracaobizu/

Site: http://geracaobizu.com.br/

Café no Água Verde. Foto: Divulgação/Mora Constrói
Café no Água Verde. Foto: Divulgação/Mora Constrói
Painel do artista plástico Neto Vettorello. Foto: Divulgação/Mora Constrói
Antigo módulo policial abandonado. Foto: Divulgação/Mora Constrói
Antigo módulo policial abandonado depois do incêndio. Foto: Divulgação/Mora Constrói

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