Fome e violência na infância em carta de preso do Paraná que pede ajuda

“Quero sair daqui para nunca mais voltar”.

“Me sinto envergonhado dos meus erros”.

“Eu gostaria de uma oportunidade para trabalhar aqui na unidade”.

As frases são da carta que J.D.S.B, 49 anos, mandou para o Conselho da Comunidade de Curitiba. Ele está preso na Casa de Custódia de Piraquara.

Soltas, podem sugerir um bate-papo frequente entre aqueles que cumprem alguma reprimenda judicial, mas dentro de um contexto ajudam a entender quem cumpre pena atrás das grades no Paraná.

J.D.S.B pede duas coisas: oportunidade de trabalho e ajuda da Defensoria Pública do Paraná em um pedido de indulto ou comutação. O que evidencia (conforme os inúmeros dados de tribunais de contas, ministérios e secretarias) que há pouquíssimos canteiros de produção no sistema penitenciário e também o perfil social da maioria, sem acesso a advogado (ou direito ao contraditório) e assistência jurídica – o Estado disponibiliza apenas quatro defensores para atender a execução penal de cerca de 10 mil presos.

Ele passou 15 dos 49 anos preso, ou seja, teve apenas 16 anos de liberdade na vida adulta. Os pequenos relatos de trabalho na carta dão conta de um emprego como auxiliar numa empresa de móveis e reciclagem de materiais descartáveis como autônomo. Ele estudou até a 2ª série do ensino fundamental e diz que o encaixe na unidade pode antecipar sua saída e possibilitar um aprendizado em outra área que não seja de sujar as mãos.

J.D.S.B também relata infância difícil. O pai era “homem ruim”, descreve. Ele tem sete irmãos e diz que certa vez apanhou porque pediu um pedaço de pão na casa do avô. Também apanhava por pegar comida dentro da própria casa.

Pouco depois, na adolescência, mudou-se para a “cidade” e passou a receber ajuda dos vizinhos com pão e leite. Nessa época o pai o proibiu de estudar para que empilhasse dez metros de lenha por dia. Achou más influências entre os amigos e chegou a acumular passagens por casas para jovens infratores.

Disse que também tem no currículo uma expulsão de uma empresa de móveis que descobriu que era ex-detento e a perseguição da polícia local – qualquer roubo na cidade era motivo de uma checagem em sua casa. Ele cumpre quatro condenações por furto qualificado e estelionato.

Ele saiu a prisão em janeiro de 2017 com tornozeleira eletrônica e procurou a família. Não via a esposa desde 2013, e, segundo ele, ela estava muito magra, quase morrendo. Levou ela para morar na casa de sua mãe e voltou a coletar material de reciclagem, mas nada que pudesse significar um salto social estratosférico.

Voltou para a prisão pouco depois. O roda-gigante da reincidência girou.

A nova progressão de regime está marcada para 26 de abril de 2019, mas J.D.S.B torce por uma comutação de pena até lá. O Conselho da Comunidade de Curitiba encaminhou para a Defensoria Pública o pedido de ajuda e para a direção da Casa de Custódia a solicitação de encaixe em uma vaga de emprego.

Trecho da carta entregue ao Conselho da Comunidade de Curitiba

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