Lino, a fábrica de vassouras e o mural da penitenciária mais antiga do estado

Um dos pátios de visita

De longe não parece, mas a Penitenciária Central do Estado (PCE) tem um corredor em formato de poço logo na entrada. Os desenhos querem dizer olhem para cima. Pouco antes da nova decoração, essas mesmas paredes estiveram tomadas de brasa, destruição e sangue, e contavam as histórias das rebeliões mais recentes. Esquemas de outros tempos. Desde 2015, a calmaria permitiu ao presídio respirar e ao agente penitenciário Lino de Lima Teixeira, de 58 anos, tirar os morcegos do bolso. Na lábia, ele conseguiu tinta e rolo e entregou tudo nas talentosas mãos de Neurônio, detento que tinha tino para a coisa. A ideia era bem clara: desenhar a liberdade saindo de um poço de tijolo em 400 metros de corredor. Calhou de Neurônio ser liberado para o regime semiaberto na metade do caminho, depois de 20 dias de pinceladas, o que fez com que outros sete detentos concluíssem o paredão.

O mote, conta Lino, tem um só viés. “A movimentação dentro de um presídio é natural, portanto os corredores contam muitas histórias. Esse corredor, em específico, precisava de uma mensagem. Eu sempre digo para eles: ‘você está preso porque cometeu um delito, mas se cometer novamente é porque é, desculpe a expressão, burro’. É uma mentira aquela história de que o preso ‘está bem’ no presídio, ‘come bem, vive bem’. Ele perdeu a liberdade, logo perdeu tudo”, afirma.

Esse paredão de Homem-Aranha, Cascão e diversos outros personagens também tem a ver com as visitas infantis. “Um dos focos do projeto foi justamente fazer um paredão para que as crianças olhassem de maneira diferente para o presídio. Para que elas pensassem: meu pai perdeu a liberdade, mas ainda tem uma saída. Essa saída é lúdica”, conta Lino.

De início, houve uma pequena complicação, porque Neurônio começou o desenho do avesso, pela liberdade, talvez porque a alcançaria dali em instantes. De modo que os tijolos do poço foram feitos pelos outros detentos, que ainda comandam os desenhos que aparecem pela unidade. A obra ficou pronta em 2016, depois de cerca de três meses. Esse trabalho deu remição para os apenados. A cada três dias trabalhados, os sete ganharam um dia mais perto de casa.

A PCE tem 23.200 m². São nove quilômetros de corredor contando também a estrutura do Presídio Central Estadual Feminino (PCEF), que foi desativado para receber uma nova unidade, que abrigará presos que estão a menos de um ano de progressão de regime. O projeto terá início em dezembro.

Lino, o preso e Dra. Isabel com as vassouras produzidas na unidade

Fábrica de vassouras

Não bastasse a mão pesada para tintas, Lino também é responsável por outro projeto, pioneiro, que pode abastecer em breve todas as penitenciárias do estado com vassouras com cerdas de garrafa pet. Essa ideia é antiga e agora tomou corpanzil sustentável. “Tudo começou em 1999. Nós fizemos uma fábrica de vassouras em frente à PCE. Construímos o espaço físico do bolso. Pegávamos madeira na Colônia Penal Agrícola do Paraná (CPAI) e eu comprava as cerdas com o próprio salário. Depois de muito tempo e idas e vindas trouxemos essa ideia para dentro da PCE, no ano passado”, explica. O Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba entrou como pôde nessa parceria: foram pouco mais de R$ 1.000 de doação. Lino comprou as cerdas e os cabos continuam vindo das ripas do CPAI. “Temos parte desse dinheiro até hoje”, orgulha-se.

O próximo passo é ambicioso. O Conselho da Comunidade investe na ideia de Lino e da pedagoga Meiry Mostachio, que também trabalha na PCE: vassouras e rodos feitos a partir de garrafas pet, fruto de uma ideia encontrada em uma penitenciária do Nordeste. O processo foi desenvolvido pelos próprios detentos de Piraquara e visa clarear um problema grave do sistema carcerário: a falta de material básico para o dia a dia. Desde 2015, saíram da forma em torno de 1.000 vassouras e rodos.

Dessa vez, a doação e a expectativa são maiores. Em torno de R$ 5.000 serão usados para comprar um filetador elétrico, uma prensa para montar as peças, um cortador de fundo de garrafa, uma guilhotina e suporte elétrico para placas de forno. As peças virão do Pará. O objetivo é que sejam desenvolvidas vassouras para a Penitenciária Central do Estado (PCE) e também para as demais nove unidades prisionais da Comarca.

As vassouras e rodos são usadas por 15 presos responsáveis pela faxina do local. Também há remição de pena nesse caso.

Agente faz-tudo

“Quem diz que não tem medo está mentindo. Eu tenho respeito”. Lino de Lima Teixeira nasceu em Jaguariaíva e frequenta a PCE desde os 16 anos –  o cunhado era agente penitenciário, todos da família moravam na Vila Macedo, em Piraquara. Ele se mudou do interior para morar nas redondezas e frequentava a prisão em uma “era de ouro”, como conta. Os próprios detentos faziam pão francês para a comunidade nessa época. Ele não esquece nem do nome: o padeiro era chamado de Diabo Loiro, da quadrilha da Carne Seca.

Em 1987, ele fez concurso, foi aprovado e entrou para o Departamento Penitenciário. Diz que é faz-tudo. “Eu dou a cara a tapa”.

A próxima ideia também é certa: ele vai escrever um livro de memórias, inclusive dos horrores da penitenciária do Ahú, onde ficou um tempo. De palhinha, contou uma dessas histórias que parecem banais, mas que dizem muito sobre quem encara as celas todo dia. “Tem uma história clássica de 1974, uma fuga espetacular. Um tal de Júlio Bis era o chefe da segurança. Nessa época, o Janguinho, pistoleiro de um dos comendadores do Norte do estado e também goleiro do time de futebol do Matsubara, estava na cadeia. Ele iniciou um motim cinematográfico e matou o Bis. Teve fuga em massa, parecia Carnaval. Foi um espetáculo. É o que os agentes contam. Talvez até hoje seja a maior fuga da história do Paraná”. Pena do Neurônio não poder desenhá-la.

O corredor central da PCE

Anúncios

Personagens que chegam ao Conselho: Evandro pena para não recair

Moreno, alto e magro, retrato do preso brasileiro, Evandro* chora copiosamente quando fala sobre as duas filhas, de 9 e 6 anos. Elas se alimentam melhor na escola municipal do que em casa. “É a melhor refeição das duas”, afirma. Essa cena faz parte da rotina de segunda à sexta-feira dessa família de cinco almas – contando ainda a mulher, de apenas 24, e uma nova menina, que ainda repousa no ventre da mãe. O choro da verdade parece que antecipa essa nova fome.

Na despensa, enumera, apenas cinco quilos de arroz, um de polenta e alguma farinha de trigo. Esse é o prato do dia, todos os dias, quase nada para alimentar as mulheres de sua vida.

Há pouco Evandro quebrou o braço direito e o que já era difícil se tornou praticamente impossível. Ele trabalhava de auxiliar em uma obra quando uma pilha de tijolo tombou sobre o rádio, partindo-o, na altura de uma tatuagem. Logo foi operado no Hospital do Trabalhador, mas, ironicamente, depois de sarado, não conseguiu mais emprego. Deixado de lado pela incapacidade física e pela burocracia.

Nesse segundo ponto a agrura é a mesma enfrentada por outros egressos ou apenados do sistema penitenciário: há boa vontade de todos os lados, mas ela vem acompanhada do pedido de posse do título de eleitor. Legislação, dizem. O problema é que o título de eleitor só pode ser entregue no fim da pena; no caso de Evandro, dia 20 de junho de 2021. Enquanto o seu regime é aberto, nada feito. Ele comparece perante juízo apropriado a cada dois meses para assinar a papelada. Só não pode preencher o contra-cheque.

Somam-se a esses vetores uma bronquite asmática controlada com inalação diária e pedras no rim, suportadas na base do remédio. Na última vez em que veio ao Conselho da Comunidade, os rochedos começaram a “explodir” no caminho, parado de pé no ônibus. Ele desmaiou, foi internado e ficou um tempo acamado. Quando bem, tentou outros três empregos junto ao Sine, em dois supermercados e em uma distribuidora de carnes. Todos pediram título de eleitor.

Diante desse cenário, Evandro pena para não voltar ao crime, que lhe é tão fácil. Está cercado de conhecidos do mundo das drogas lá em Araucária. Dos 26, completados em setembro, pode dizer que viveu plenamente apenas 25. O outro foi no xadrez, fruto de porte ilegal de arma e assalto à banco, cumprido na Penitenciária Estadual de Piraquara II (PEP II). Foi em 2015, num dia de pouco movimento. Ele se rendeu depois do primeiro apito da polícia.

Nessa época, o relacionamento com a mulher, iniciado quando jovens, já ia de mal a pior. Ela nunca gostou “do mundo das ilicitudes” em que ele estava envolvido. Já tinham as duas filhas quando do ocorrido, são amasiados. Ela sempre o visitou na prisão. Evandro prometeu que nunca mais se envolveria com coisa errada. Chorou mais uma vez quando contou.

Tal qual o personagem principal de Desonra, do sul-africano J. M. Coetzee, Evandro rompeu o ímpeto do desejo em busca do conforto da casa e de um recomeço. A mulher trabalha há um ano em uma farmácia no bairro Água Verde, em Curitiba, e agora, barrigudinha, repousa na licença-maternidade. Ela tem família longe, em Santa Catarina, também pobre, sem condições de ter muito mais que um pão. A mãe dele tem outras pendências e ajuda quando pode.

Na cadeia, Evandro fazia remição por livro. Eram histórias infantis, de personagens de aventura, e depois do ponto final ele precisava responder a uma prova. Tinha cinco dias para cravar. A remição por leitura lhe rendeu algumas semanas, mas o único livro que leu, de fato, foi a biografia do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal. “Os guardas me deram, fiz questão até de levar para casa. A história dele é incrível”, resume.

Mas o foco da sétima visita dele ao Conselho foi mesmo o pão na mesa. Evandro já trabalhou como auxiliar em um açougue, marmorista, ajudante de descarga e de produção. Ele fez um técnico em computação e agora fará, com auxílio do órgão, um em panificação. Com a última cesta básica, já havia fabricado uns pães para vender pelo bairro. Involuntariamente, a vida volta a girar em torno da farinha de trigo. E de uma nova oportunidade.

Evandro*: nome fictício.

Personagens que chegam ao Conselho: o nome do livro é Censura Privada

Censura Privada narra a história de uma mulher em busca de satisfação e esquecimento. Talvez ela seja rapariga, conta Elza*, sobre a possibilidade de desenhar a personagem principal com muita juventude e disposição para o namoro sem amor. O pano de fundo é o Rio de Janeiro tal e qual o município sombreado pelas crônicas de Lima Barreto, sujo de sangue, suor e desafios. O livro conta os passos de uma mulher que é viciada em duas ou três drogas, ao sabor da ocasião: álcool, crack ou cocaína. A gostosura tem ordem decrescente, garante.

As linhas, obviamente, serão para maiores de 18 anos, um livro que não tem censura sobre a vida privada. Ele poderia se chamar Só Adrenalina, talvez até se chame, mas o outro nome apetece mais. Um texto sem nãos porque essas necessidades só aceitam sins.

Aos 39 anos recém-comemorados, Elza disfarça quieta sobre a veracidade dos relatos, mas é evidente que o livro trata de memórias fotográficas. Ao invés de olhar para cima, para o mundo das ideias, ela caça migalhas no chão, como se espiasse o pé entre a lente de um óculos e a pele. Cheia dos pudores em pessoa, mas sem nenhuma dúvida com o lápis em riste. A começar pela personagem-luz, podemos cravar que essas mulheres são iguais: a história é de uma moça que viveu nas ruas fluminenses por dois anos e tantos, entre outras prostitutas e dinheiro fácil, como dizem, tal e qual a própria; o documento traz um festival de substâncias e nomenclaturas de linguagem fácil, como dizem, tal e qual a sua; as marcas no corpo e na mente são visíveis a olho nu, apesar de reprimidas, como dizem, tal e qual a sua. Não tem erro: vai ser tipo Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída ou O Doce Veneno do Escorpião, um livro de frases exclamadas.

Esse vai ser o terceiro conto de Elza. Os outros dois são infantis, prova máxima de que violência não apaga aqueles bons anos. As Aventuras de Hugo e Guga – Navegando no Iguaçu e Paddock – Amigo da Natureza são tipo indianas jones dos dias atuais, mas sem apego às artimanhas. Parecem esses desenhos do Cartoon, todos coloridos, fáceis. Esse último inclusive recebeu apoio da Lei Rouanet e já está publicado, mais ou menos ao alcance de todos. Nem no Google pode ser encontrado. O outro foi escrito com caneta azul e ainda repousa num maço de papel unido por um grampo simples. As folhas têm manchas de tempo: café, borrados e dedões.

Elza tem realmente muito a contar enquanto não sabe o que fazer com os pensamentos de suicídio. É tudo muito grave. Ao que tudo indica, ela prefere roteirizar o desabafo ao invés de vivê-lo.

Os livros não têm nada de novo, a não ser André.

Tudo começou com o pai, Euclides, que era acometido por uma série de distúrbios psicológicos. Elza conta que ele matou a mãe com veneno de rato, e, além disso, o fez calma e tranquilamente. A mãe foi consumida pouco a pouco, em pequenas doses, e levou em torno de um ano para morrer. Foi sumindo, sumindo, sumiu. O irmão, André, tinha 15 anos quando tudo isso aconteceu. Ele também escuta vozes – Elza não sabe se já as ouvia antes.

O drama tomou novas proporções quando André decidiu enterrar os dias do pai, logo depois de encerrar também algumas imagens sacras de uma igreja evangélica num ataque de ódio. Os acessos lhe colocaram no Complexo Médico Penal, em 2015. Talvez as vozes digam e ele, marionete, replique, mas ninguém nega que ele é autodidata e aprendeu, segurando o próprio dicionário, espanhol e francês. Fala para quem quiser ouvir, mesmo tendo completado apenas o segundo grau.

Elza tem saudade dos dois, mas mais de André. Ela alcançou o Conselho da Comunidade por causa dessa saudade; palavra difícil de escrever, mas fácil de arrepiar. Humildemente, queria ajuda para tirar André do isolamento. Ela acha que ele sofre uma dor indizível atrás das grades. É esquisito, porque esse sentimento beira a dor da carne. “Não podemos nos comprometer a tirar ele de lá”, dissemos. “Tudo bem, vocês podem ver os livros”.

Elza escreve fácil, não redige pareceres, mas tem no currículo dois anos de Direito e mais dois de Assistência Social. Agora ela é técnica de Enfermagem. Em casa, tem um filho. Na vida, dois. O pequeno, de 4, é filho de Jonas, seu atual companheiro. A mais velha, de 18, calhou de vir em momento conturbado e terminou o amadurecimento num orfanato. Elas não se veem.

Jonas, 54, miúdo do pé à cabeça, pode concorrer a título de cidadão mais humilde do mundo, fácil, fácil. Ele não lê porque não sabe, e justamente por isso Elza conta as suas histórias em voz alta. Escreve, lê e recita, página por página. Jonas cuida de carros na Região Metropolitana de Curitiba para ajudar a compor a renda familiar, que anda às mínguas.

Elza também é silenciosa. Não conseguiu falar em voz alta, mas desabafou para outrem que é abusada por familiares de Jonas logo após o álcool em excesso. A defesa tem poucas palavras, como ficam os que ouvem sua história. Há ainda outra irmã, que estava na igreja apossada por André. Nem pai nem irmão aceitavam a redenção dela pela fé. Hoje, ela trabalha no Fórum de Fazenda Rio Grande, também na Região Metropolitana de Curitiba, e nunca visitou o irmão no xadrez.

Elza*: nome fictício.

Personagens que chegam ao Conselho: crime da Rua Amor Perfeito

A Rua Amor Perfeito, em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, tem quatro quadras e casas bem simples, dessas com número pintado à mão e arquitetura de desenho. Um pouco mais ali passa o Rio Iguaçu. Mais além resta a Caximba. Aos lados, enfileiram-se as ruas Cactus, Jasmin, Flor-de-Lis, Samambaia e Avenca. É uma descida irregular. Num milharal às margens, aos 27 dias de maio de 2012, morreu o dono de uma caminhonete e nasceu mais uma viagem na vida de Maria*.

Tudo começa quando Simone, a mãe, foi consumida pelo câncer. Essa história mudou os traços de Maria. Ela tinha apenas 11 anos, era a mais velha de cinco – os irmãos tinham 10, 5 e 3 e o mais novo apenas 7 meses, menos tempo de sol do que sombra. Fernando Henrique Cardoso era presidente do país.

Simone sucumbiu a um câncer avassalador no intestino, o primeiro da vida de Maria. À época, a família morava nas encostas de Santa Felicidade, perto de um Corpo de Bombeiros. O pai, que não lê, não pontua e vive de uns rebocos, tocou o timoneiro da casa. Ele sempre foi um guardião. Quando a mulher faleceu, protegia as frutas e verduras do Ceasa. Apesar de tudo, teve que continuar na labuta, mas os vizinhos logo denunciaram o caso da família para o Conselho Tutelar: uma menina de 11 cuidava de 4. O órgão deliberou por não permitir que um bebê de 7 meses ficasse nessa condição. A tia ajudou.

Há 3 anos, outro câncer. Antonio, irmão, faleceu também vítima de avalanches no intestino. Era catador de papelão e tinha o coração nas mãos, segundo Maria. Solteiro, passou aos 28 anos.

Há 4 meses foi a vez de outra irmã, Sonia, vítima de um câncer de estômago. “Definhou até a morte. Ficou amarela, pálida e o fígado explodiu”, diz Maria. Sonia deixou quatro filhos: uma menina de 11, um menino de 8 e gêmeas de 4. Foi no Dia dos Namorados. O parceiro dela era usuário de drogas, segue por aí e “não compra uma bolacha para as crianças”. Sobrou para Maria, uma filha de 18 recém-completados, o marido e o pai. Ela pulou de quatro para três irmãos e de um para cinco filhos no mesmo dia.

Como se não bastasse, as flores de 2012 lhe trouxeram outro causo, o da viagem do lide. Envolve Jair, 27 anos, preso da Penitenciária Central do Estado (PCE) por latrocínio. O irmão foi cúmplice de um assassinato e agora, depois de 4 anos e 7 meses, trabalha na limpeza dos corredores da penitenciária. Ele foi condenado a 21 anos em regime fechado. Livramento condicional somente a partir de 30-10-2025. Há 3 anos passou por uma cirurgia por causa de um câncer no intestino.

Segundo Maria, todas as idas ao banheiro de Jair são punições impostas por certo Deus. Nada de cura. Ele tem varizes internas que estouram quase que diariamente. Jair já passou algumas vezes pelo Complexo Médico Penal (CMP), que recebe os doloridos do sistema penitenciário local, e os diagnósticos são parcos: apenas exames de sangue. Maria quer ao menos uma endoscopia. “Já perdi dois irmãos para o câncer. Agora estou às vésperas de perder o terceiro”, diz. “Ele é o único envolvido em coisa errada. Nós somos muito simples, mas o pai sempre disse: o que é nosso, é nosso; o que é dos outros, é dos outros”.

Jair já não come a risotolândia da penitenciária e tem sobrevivido a base de pão e miojo (são permitidos 6 pães e 12 miojos por mês, de acordo com as regras da sacola). Maria é a única da família que o visita. A PCE tem quase 1.700 presos e apenas 500 recebem visitas regularmente.

Ela conta que anda moleza. “Agora é mais fácil, não tem mais as revistas íntimas. Os agachamentos são humilhantes. Mas não passa vez sem alguma coisa. Eles sempre pegam, elas não aprendem. Agora, eu levo duas horas para chegar até Piraquara. Essa é minha viagem”, diz.

A peregrinação não é a primeira. As idas e vindas começaram quando Sonia ficou doente e se mudou para a casa de Maria com as crianças. Depois, elas ficaram entre Curitiba e Campo Largo nos hospitais. Sonia calhou de morrer aqui mesmo. O caixão foi pago em três vezes. “Acabamos de cobrir o último cheque. Foi aqueles de 30-60 dias”.

Antes disso, Maria trabalhou por cinco invernos na Mondelez, mas teve que largar o emprego quando a família começou a diminuir e aumentar. A filha trabalha em uma panificadora e ajuda nas contas da casa. Ela já foi menor aprendiz no Spich, restaurante que serve buffet livre a R$ 4,50 nas ruas do centro.

O marido é porteiro no mesmo prédio há 13 anos, ironicamente no bairro Portão. Com as crianças rondando a casa, Maria não consegue trabalhar. A filha adotada mais velha, de 11, vai mal na escola: está apenas na 3ª série. O de 8 está na 2ª. Todos estudam no colégio municipal João Amazonas, no Tatuquara. A conta de Maria ainda é em série.

A filha de sangue, Geni, tenta ensinar Maria a entender as palavras. “Você precisa ler”, ela diz. Já as adotadas têm questionamentos mais indecifráveis. “Tia, você disse que minha mãe virou uma estrela, como pode se eu pergunto por ela e ela não responde?”, diz a mais velha, que cuidou na mãe quando mal sabia cuidar de si. As gêmeas falam: “tia, temos tanta vontade de conhecer ela”.

João, o irmão de fora, tem outros 4 filhos e é frentista. Jair não tem herdeiros. Segundo Maria, ele é motivo de chacota na cela que divide com outros seis. “Ele é do bem. É crente”. Na delegacia de Araucária, para onde foi levado logo após o crime da Rua Amor Perfeito, ele ficou detido com mais de 100 num espaço de 40.

Maria e João já fizeram todos os exames e não têm indicativo de câncer. As crianças também estão a salvo. Ela, no entanto, tem hipertireoidismo. Nos últimos tempos também recebeu um papel, via postinho de saúde, do hospital onde a irmã morreu. As letras acusam negligência médica. Está encucada com isso. O caso descansa na papelada da Defensoria Pública.

Sonia tinha 33 quando o caixão fechou. Faria 34 no mês seguinte.

Maria, o pai, o marido, e as três sobrinhas nasceram em abril. Só quer dizer algo para quem lê estrelas direitinho. Sobre Jair, ela só tem uma frase: “é sangue do meu sangue. Não vou desistir dele”.

Maria*: nome fictício.